Cross Country no céu do cerrado brasileiro

Cross Country no céu do cerrado brasileiro

Publicado em 3 de setembro de 2015 por Odilon Jr. DFly | 26 Comentários

Em minha primeira aventura com a SPOT Brasil, participei da 7ª edição do XCERRADO, um evento internacional de voo livre de parapente na modalidade Cross Country. Meu objetivo era bater o recorde local de voo duplo, passando dos 100 km de distância. Preparei meu novo equipamento vindo da Polônia (uma vela básica para voos duplos, a Orcaxx da Dudek), e agora, eu precisava de um copiloto que fosse resistente, pois lá os voos podem durar até 7 horas e as condições se equivalem a ir ao Havaí surfar em ondas gigantes.

 

Quando finalmente encontrei meu copiloto, Everton Deval, não tivemos tempo de treinar juntos e testar em campo o novo equipamento. Porém, partimos com muita vontade e extremamente confiantes! Embarcamos no Rio de Janeiro um dia antes da competição. Após algumas horas e troca de aviões, chegamos à Goiânia. De lá, pegamos um ônibus até nosso destino, Jaraguá. É uma cidade situada em Goiás, a 1.350 km do Rio de Janeiro, bem no cerrado brasileiro. Lá, com clima seco e muito calor, formam-se as térmicas fortes procuradas por aventureiros para voar grandes distâncias. Ao chegar, vimos que o hotel não era dos melhores. Porém, não fomos a passeio. Somos guerreiros e ficar no hotel seria somente para descansar após voar por longas horas e ter que voltar no resgate pelo restante do dia.

 

No primeiro dia de provas, às 9h em ponto estávamos na praça central da cidade, com centenas de pessoas da região que vieram conhecer esses loucos voadores que colorem todo ano os céus do cerrado, pousando pelas rodovias e fazendas. Com nossas roupas características, tênis coloridos e botas para longas caminhadas, mochilinhas com água, bonés e óculos de tipos bem diferentes, sem contar as mochilas enormes com equipamentos que voam. Embarcamos no ônibus enquanto as mochilas eram colocadas em um caminhão. Subimos a serra fazendo meio que um turismo, pois atravessamos toda a cidade. Já na rampa era aquele clima de festa e tensão. Pilotos preparando seus equipamentos e se vestindo como super-heróis ou astronautas, cada um com sua roupa e estilo próprio.

 

Eu e meu copiloto começamos os preparativos enquanto outros já começavam a decolar. Tensão na rampa! O vento, nosso maior aliado, não estava na direção correta, formando grande turbulência e complicando as decolagens. Nesse primeiro dia, muitos conseguiram sair. Mas, devido ao grande número de pilotos, decolamos bem atrasados e não conseguimos partir para a prova de longa distância, fazendo um voo mais para treinar e testar o conjunto e o equipamento. Foi uma decolagem tensa com turbulência, mas conseguimos regular e testar tudo num voo de cerca de 1 hora. Pousamos e fomos preparar tudo para o outro dia.

 

Odilon e Everton no primeiro vôo Cross Country

Odilon e Everton no primeiro dia de prova

Como se diz no voo livre, pegamos um canhão na saída. Isso significa que decolamos dentro de uma térmica bem forte e fomos sacudindo até uns 1.900 m de distância da rampa. UFA! Era disso que precisávamos, sair logo e alto. O voo durou 3h40m. Ficamos baixo, perto de 200 m do chão, e lutamos muito para conseguir ir bem longe. Em alguns momentos chegamos perto dos 3000 m, o que era mágico, mas ao mesmo tempo um frio desproporcional de -15º enquanto no chão a temperatura estava próxima dos 37º.

 

Percorremos aproximadamente 82 km de distância e pousamos no meio do nada, em uma fazenda de búfalos. Quando percebemos, ao tocar o solo e olhar ao redor, já era tarde. Olhamos aqueles bichos e saímos correndo até chegar a uma cerca, onde pulamos de uma só vez. Rindo de tanto nervosismo e certos de que iríamos caminhar pelo resto do dia, guardamos nossos equipamentos. Sem comunicação por rádio nem telefone, acionamos o SPOT Gen3, que estava ligado diretamente à organização do evento. Ou seja, o sucesso do nosso voo com segurança foi reportado instantaneamente e pudemos seguir tranquilos. Nossa estratégia de volta seria simples, cada um carregaria a mochila de 30 kg por 20 minutos até chegar ao vilarejo mais próximo, cerca de 20 km à frente. Quase que por milagre apareceu o João Paulo, dono da fazenda que pousamos. Um cara de uma educação incrível que, sem pensar duas vezes, chamou um carro da cidade mais próxima para nos levar até Itaporanga, onde poderíamos pegar um ônibus até a rota do resgate.

 

Aproximadamente meia hora depois chegou um senhorzinho com seu carro empoeirado das estradas de terra para nos resgatar. Perguntamos do ônibus e ele falou que, se corresse, daria tempo. E lá fomos nós para o rally do cerrado. Confesso que fiquei mais tenso com ele dirigindo naquelas curvas fechadas do que durante o voo turbulento. Chegamos em pouco mais de 1h30m na rodoviária e o motorista do ônibus já estava saindo… UFA! Agradecemos nosso Ayrton Senna do cerrado e partimos para mais uma cidade. Foram mais duas horas até Itaberaí, onde encontramos outros pilotos e o ônibus da organização. Esperamos por pouco tempo e lá fomos nós para mais duas horas de estrada, contando nossas histórias do voo do dia. Chegamos quase 22h em Jaraguá. Sujos, cansados e empoeirados, mas estampando aquele sorriso de satisfação!

 

Longa estrada de volta à base do evento

Baixamos os dados e lá fomos nós, famintos, em busca do tão sonhado prato feito, vulgo PF. Após comer como se fosse a última refeição, fomos tomar banho e conhecer a tão famosa Festa do Peão de Boiadeiro da cidade. Claro que, no sistema Cinderela. Ou seja, meia noite na cama para descansar! No terceiro e decisivo dia para tentar o recorde que estava tão perto, mais uma vez subimos e nos preparamos para a decolagem. Rezei por alguns minutos, furei a fila e decolamos. Dessa vez, foi ainda mais turbulento. Tomamos sacudidas de todos os lados e o grupo que voava junto começou a fechar as velas do nosso lado. Agora era cada um por si. Consegui encaixar e subir quase 2000 m para sair daquela área. Partimos mais uma vez para o cross, mas logo percebemos a mudança nos ventos, mostrando que aquele dia não seria nada fácil.

 

Foi um voo arrastado e fraco, com transições longas demais entre as térmicas, o que não era bom para o nosso equipamento. Com apenas três horas de voo e, mesmo fazendo de tudo para não descer, parecia que estávamos sendo abduzidos pelo solo. Então pousamos próximo a uma cidade da rota, em uma fazenda bem ampla. Ali, enquanto guardávamos nosso equipamento, notamos olhos atentos a nos observar. Percebi algumas pessoas no caminho para a casa da fazenda. Fui descendo o morro até que me deparei com o maior sorriso do mundo. Bruna, uma menina de sete anos que tinha um brilho especial nos olhos. Então fiquei sabendo que, desde que nos avistou no horizonte, ela acompanhou o voo todinho. Mas, o mais curioso foi saber que ela, com todas as suas forças, desejou ver um parapente bem de pertinho. Queria saber quem voava naquilo e como funcionava.

Odilon Jr. e Everton no segundo dia de provas do XCerrado 2015

Odilon Jr. e Everton no segundo dia de provas do XCerrado 2015

Fomos convidados a acompanhar a família até a casa, era a mãe e duas meninas. Chegando lá, Bruna falou suas primeiras palavras: “Queria muito ver vocês de perto, moço!” Foi quando falei, rindo: “Ai, ai, ai, esse desejo de criança!” A família toda caiu na gargalhada! Então, ficou claro que aquele não era dia de vencermos o campeonato, mas sim de realizar o desejo da Bruna. Fizemos um lanche enquanto compartilhávamos muitas histórias e gargalhadas.

 

Nós, dois estranhos que desceram voando, fomos recebidos como se fossemos da família. Vi ali a simplicidade, a educação, a receptividade e a humildade da alma pura dessas pessoas. Posso dizer que foi um voo abençoado, pois ali nós vimos que o mundo ainda tem gente boa. Porém, estava na hora de partir para mais um resgate. Caminhamos por uma hora na estrada de terra até a estrada principal, onde, com a localização enviada pelo SPOT Gen3 e o Siga-Me ligado, o ônibus nos achou quase imediatamente.

 

Foram algumas horas de estrada até a cidade, onde recebemos a notícia de que fomos vice-campeões na nossa categoria Duplo Cross Country e ficamos entre os 30 melhores de todo o grupo na categoria da vela. Grato pela parceria com a SPOT Brasil, que está trazendo uma inovação no nosso esporte, e parto para mais uma aventura, agora no Mato Grosso! Em breve novas histórias! Obrigado pela leitura!


Maravilhoso e emocionante, de lado a adrenalina do vôo, de outro a do coração, esses relatos me emocionaram muito. Parabéns aos Pilotos Odilon e Emerson, vocês viveram fortes emoções!

Muito bom!
Lendo está história me recordo da temporada de voo no verão de 2014 em Sampaio Corrêa, RJ que realizamos juntos, Odilon!
Essas aventuras de Cross Country são ímpares e me trouxeram experiências únicas na vida.
Grato por ter participado e feliz de ver que essas aventuras continuam!
Abraços do seu aluno!!

EMOCIONATE, PARABÉNS DEVAL E DILA!!

Parabéns pela iniciativa positiva…
Sucesso!

A Parapente Magazine esteve presente no eventos e presenciou o diferencial do piloto Instrutor master Odilon Jr.
Decolar naquela rampa ainda mais de duplo é para poucos.
Sucesso e bons voos.
Romulo Brito
EDITOR CHEFE
romulobrito@parapentemagazine.com.br

Show essa equipe é nota 10 e muito profissional! bons voos!

Parabens Odilon… Parabens spot…. show de bola…

Competência e profissionalismo caminham juntos.
Parabéns Odilon!

Grande Odilon Jr Dfly um dos mais experientes pilotos de cross country que conheço instrutor competente e experiente em vários voos de cross sendo solo ou duplo alcançando alguns recordes de distância.

Maravilha, Odilon!
Emocionante sua aventura!
Como sempre, voce demostrando ser um excelente piloto e com uma sensibilidade extraordinária no relato de sua experiência!
Parabéns para você e toda a equipe do evento!
Bjs

parabens odilon, levar o duplo para o cross é um desafio… pelo voo em si e por estar com mais uma pessoa dependendo diretamente de você…
parabens pela iniciativa…

Grande Mestre Dila,

Parabéns pelo voo e muito obrigado pelo relato!
Não é a toa que você é um dos melhores do mundo.
Bons ventos irmão.

Bacana! Parabéns Odilon e Everton.

Parabéns aos Pilotos
Muito bom…..muito legal os relatos
É exatamente isso que o Voo nos proporciona
Boas Histórias
Alegria de Viver
Bons Ventos…..

Parabens meu nobre amigo!
A tecnologia soma e amparatados, mais seu talento brilhante foi fundamental para obter grandes vitórias!
Bons ventos sempre!

Odilon Jr Dfly relembrei através do seu texto as várias vezes em que fui muito bem recepcionado pelas pessoas que moram em fazendas e sítios longe das cidades do Goiás!
Uma vez fizeram uma janta especial para mim e para meu parceiro de vôo.
O pessoal de lá é de um coração enorme.
Só quem viu isso de perto preza a bondade daquelas pessoas!
MACATUBA

Muuuuuuuuuuuita emoção…cada vôo uma historia!

Show de aventura Odila, parabéns pelo trabalho e espero nos encontrar mais vezes.

Forte abraço daqui de Conquista ‘Oeste MT

O esporte nos leva para experiências incríveis. E a tecnologia nos ajuda à quebrar todos os limites do que é possível. Anos atrás, só era possível voar com mapas e fazer fotos para mostrar uma aventura. Hoje, já é possível dividir nossas emoções. Ouvir histórias como essa é como embarcar no mesmo voo. Parabéns pelo trabalho e pela competência. Você além de um grande piloto é uma grande pessoa. Sempre disposto a compartilhar e somar ao esporte.

Muita garra sempre!

Parabéns Odilon pelo trabalho, continue divulgando o voo e mostrando nosso Brasil.

Lendo seu relato, me fez lembrar um cross que fiz lá em 2009, o resgate foi sinistro na caçamba dum Arton Senna do cerrado. Show relembrar esses momentos únicos que vivemos.
Parabéns

Dila vc é o cara, vc é merecedor pois todos sabem o quanto é profissional, um dia quero voar do teu lado

Parabéns pela aventura!!!

Parabéns Odilon, excelente instrutor. Super indico a todos!!!

Muito show piloto profissional.
Parabéns, meu amigo

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