O mundo do Mountain Bike | Guilherme Cavallari

O mundo do Mountain Bike | Guilherme Cavallari

Publicado em 22 de Abril de 2016 por SPOT Brasil | 1 Comentário

 

Guilherme Cavallari já fez muitas coisas, e pretende fazer tantas outras. É escritor, atleta de diversas modalidades, filmmaker, jornalista, blogueiro, participa de podcasts e, acima de tudo, um ávido adepto da vida na natureza! Em entrevista exclusiva à SPOT Brasil, Guilherme fala sobre as diferentes modalidades de esporte que já praticou, livros que lançou, a recente paixão pelo cicloturismo de aventura, que rendeu o documentário Transpatagônia, disponível na Netflix do Brasil, e outros assuntos que ligam vitalidade e natureza!

 

Natureza Guilherme Cavallari

Guilherme Cavallari

 

 

 

 

Depois de se destacar em competições de judô, handebol e rugby, em instituições como Águias do Brasil, Esporte Clube Pinheiros e SPAC, como aconteceu a transição para o cicloturismo de aventura?

 

Os primeiros esportes competitivos que pratiquei me ensinaram muito sobre disciplina, esforço e humildade, porque a gente treina muito, compete às vezes e perde bastante. Mas em determinado momento da minha vida, já adulto, percebi que a competição restringia muito a experiência do esporte, especialmente o esporte de contato com a natureza. Quando eu corria de mountain bike ou fazia corrida de aventura, passava ao lado de cachoeiras lindas, rios cristalinos, mirantes sensacionais e nunca tinha tempo de curtir, de nadar, de fotografar ou apenas contemplar. Parar de competir não significou para mim parar de treinar, perder a forma física, deixar de buscar meus limites. Agora faço tudo com mais calma.

 

Júlio Verne escreveu obras de aventura e ficção científica que influenciaram gerações como “Cinco Semanas em um Balão” (1863), “Viagem ao Centro da Terra” (1864), “Da Terra à Lua” (1865), “Vinte Mil Léguas Submarinas” (1869) e “A Volta ao Mundo em 80 Dias” (1872). O autor também é uma das suas inspirações? Quem te apresentou as obras de Verne?

 

Venho de uma família de leitores. Minha mãe sempre leu muito e eu adquiri não apenas o hábito da leitura com ela, mas também o amor pela palavra escrita e pelos livros. Isso foi decisivo na minha vida. Lembro de ter começado a ler Julio Verne com talvez 11 anos o até menos e me apaixonei! Li todos os livros dele numa coleção de capa dura que ficava numa casa de campo que minha família mantinha na região de Atibaia. Devorei todas as aventuras do Julio Verne! Aprendi infinitamente mais com os livros que li aleatoriamente na vida do que com a escola formal.

 

Em um dos relatos, você conta que retornar de qualquer viagem para casa, em SP, era um trauma. Conta para gente como foi a transição da cidade grande para a casa junto à natureza, em MG.

 

Eu nasci e vivi até os 50 anos em cidades grandes – morei em São Paulo, Boston, Londres, Tel Aviv, Milão, Berlim – mas sempre tive muita afinidade com a natureza e com atividades ao ar livre, sempre buscava o contato com a natureza de um jeito ou de outro. Trabalhei catando batatas em Cambrigde, na Inglaterra; colhi maçãs no norte da Itália, na região de Trento; fui limpador de chaminés em Boston, nos EUA; fui mensageiro de bicicleta em Berlim, na Alemanha. Eu me sentia preso à cidade grande, às facilidades que eu acreditava existir no ambiente urbano, ao mercado de trabalho que identificava mais forte onde há mais gente. Foi preciso uma reeducação pessoal lenta e profunda para entender que “qualidade de vida” só existe onde há água pura e ar livre, pra começar. Sem esses dois elementos básicos não existe vida com qualidade. A mudança da metrópole São Paulo para a rural Gonçalves, em Minas Gerais, onde vivo com minha esposa numa fazenda, foi um grito de liberdade. A transição foi rápida e indolor. Hoje temos pesadelos imaginando que, por alguma razão, precisaremos um dia voltar a viver num grande centro urbano.

 

É possível construir uma vida, com os hábitos rurais, na cidade grande? Que sugestão você pode dar aos nossos leitores que sentem o mesmo que você em todo o desembarque?

 

Quem quer viver longe dos grandes aglomerados urbanos no Brasil tem que remar forte contra a maré! Tem que ter foco, vontade e determinação! Não existe política pública ou privada apontando para a facilitar o êxodo urbano, o retorno ao convívio com a natureza. Mesmo havendo interesse da população para isso. Não existe boa oferta de serviços públicos ou privados na área rural brasileira. Se você quer sinal de internet, fica à mercê das operadoras de celular ou serviços quase artesanais de internet via rádio. Se precisa de atendimento médico ou dentário, tem que se deslocar quilômetros e sem transporte público algum. Eletricidade é um privilégio, não um direito. E assim por diante. Mas, por outro lado, a vida no campo, na zona rural, é tão mais saudável e íntegra, tão mais verdadeira e harmoniosa, que a necessidade de saúde pública diminui drasticamente. Hoje em dia, com o crescimento tecnológico na comunicação, viver na roça é uma realidade que pode e deve ser explorada!

 

“Em cima da bicicleta sobra tempo para filosofar…”, Guilherme Cavallari.  Foi em uma pedalada que nasceu a ideia de criar a Kalapalo Editora e os Guias de Trilha e Manuais de Aventura?

 

Sim. Eu lembro como se fosse ontem a manhã de 1998 em que tive a ideia de começar a produzir guias com trilhas para mountain bike e viver disso. A ideia me pareceu perfeita e daquele dia em diante tudo o que fiz foi colocar um tijolo em cima do outro na construção do meu sonho.

 

guilherme cavallari natureza

Guilherme guiando uma trilha

 

 

O mountain bike é considerado uma das maiores vocações do Brasil por conta da extensa área rural, mas também pela receptividade do povo brasileiro. Compartilha com a gente alguma história dos cafés que já tomou em casas de desconhecidos e os convites de abrigo que já recebeu nas estradas de terra brasileiras.

 

Eu considero o Brasil um potencial destino internacional de esporte de aventura, essa é nossa vocação e tenho pregado isso há pelo menos 15 anos. A urbanização excessiva, comum por exemplo na Europa, ainda não chegou aqui. Nossas estradas de terra conservam a natureza e o caráter do nosso povo. Quem já viajou de bicicleta, como eu, pelo interior do Brasil sabe como a população rural é acessível, respeitosa e acolhedora. É quase impossível lembrar de quantos cafezinhos já tomei em casas de estranhos na beira da estrada, quanta gente já me convidou para passar a noite em sua humilde residência. Viajar pelo interior agreste do Brasil é seguro e culturalmente enriquecedor.

 

 

Em qual momento da sua trajetória você conheceu a SPOT? Conte uma experiência em que precisou usar nossos equipamentos.

 

Acho que a primeira vez que ouvi falar de um “personal beacon” foi na literatura gringa, em revistas importadas de esportes de aventura. Uma tecnologia nova que chegava para ficar num segmento sempre ávido por soluções inteligentes e eficazes de segurança.

 

A tecnologia satelital é vista, cada vez mais, como uma ótima alternativa para quebrar as barreiras da comunicação e colaborar com a segurança, sobretudo em países como o Brasil, com deficiências nesse sentido. Você acha que com o avanço da SPOT aqui, o Brasil pode atrair mais aventureiros apaixonados pela “cultura outdoor”?

 

Sem dúvida alguma. Acho inclusive que a tecnologia SPOT é nossa única alternativa hoje para acrescentar segurança às nossas aventuras. Ser aventureiro é ser autônomo e autossuficiente, diferente do “passageiro” em atividades do turismo convencional. Nós aventureiros temos por característica assumir responsabilidades sobre nós mesmos e, às vezes, sobre os outros também. A tecnologia via satélite SPOT possibilita essa autonomia e autossuficiência no quesito segurança também. Se não existe estrutura profissional e eficiente de resgate em áreas remotas no Brasil, cada aventureiro pode resolver esse problema simplesmente carregando consigo um aparelho como o Gen3.

 

A Transpatagônia durou seis meses. Quanto tempo levou a preparação para expedição?

 

Na verdade eu me preparei para essa viagem a vida inteira. Desce pequeno investi no desejo pelo desconhecido, pelo novo, pelo incerto. Não escolhi os caminhos já mapeados de carreira, profissão, residência e afins. Não fiz faculdade, fui morar sozinho com 17 anos, comecei a trabalhar relativamente cedo. Eu costumo dizer que a preparação para a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA durou 50 anos, para fechar a mochila gastei 3 meses.

 

Foram 6.000 km de bicicleta por toda a extensão da Patagônia e da Terra do Fogo, no Chile e na Argentina, por 180 dias consecutivos, atingindo pontos que mal constam dos mapas. Por que uma expedição solo dessa complexidade? Conta para gente como foi.

 

Eu decidi percorrer toda a extensão da Patagônia e da Terra do Fogo, num percurso de ida e volta, demorasse o quanto demorasse. Foram 180 dias, mas poderia ter demorado 360 ou mais. O tempo não era o fator limitante. Eu sabia que quanto mais longa, maior seria o impacto profundo, maiores seriam as mudanças estruturais na minha personalidade. E era isso o que eu queria: explorar não somente a geografia, mas a mim mesmo. Nenhuma viagem é mais rica que a viagem interior. Quem viaja pra conhecer lugares volta pra casa com belas fotos e mais nada. Quem viaja para conhecer a si mesmo volta pra casa melhor.

 

De onde surgiu a ideia de fazer um filme com toda a expedição, e qual sua sensação em ter o filme exibido em plataformas como o Netflix, para milhares de pessoas?

 

Eu saí do Brasil para fazer a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA com o objetivo e produzir um livro e um filme na volta. Esse inclusive é meu trabalho. O livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS demorou dois anos para ficar pronto, o filme TRANSPATAGÔNIA demorou um ano e meio. Acho legal o filme fazer tanto barulho por estar sendo exibido num canal de tanto prestígio como a Netflix, mas considero o livro bem mais completo que o filme. Nele consigo ir mais fundo nos questionamentos e descobertas pessoais, na história e na cultura da Patagônia. Para mim o filme é um atrativo para o verdadeiro discurso transformador que foi a viagem, transcrito no livro.

 

cavallari natureza bike

Guilherme em seu bike trailer

 

Os seus roteiros são bem diferentes dos convencionais. De todas as aventuras que já fez, quais delas todo aventureiro precisa experimentar na vida?

 

Impossível generalizar. Cada pessoa precisa explorar seus próprios potenciais e a aventura, no sentido da exploração e da exposição aos riscos, é um caminho. Se alguém usa meus roteiros como rota de exploração de si mesmo, não está realmente explorando nada, está apenas seguindo os passos de outra pessoa. Explorar é pisar onde ninguém pisou antes.

 

O que o contato com a natureza te trouxe de melhor?

 

Um dos maiores equívocos da sociedade urbanizada é acreditar que somos distantes e diferentes da natureza. Nós somos a natureza e a natureza somos nós. Quem convive de forma regular com o ambiente natural termina por conhecer melhor a si mesmo – essa é a maior lição que temos para aprender com a natureza.

 

A cicloMANTIQUEIRA é um projeto sócio-ambiental completo e pioneiro no Brasil, que prevê em seus conceitos básicos a não inclusão de veículos motorizados e o uso da estrutura hoteleira local. O Brasil já é considerado como um dos roteiros mundiais de turismo de aventura? O que você acha que precisa melhorar?

 

O Brasil simplesmente não existe no Mapa-Mundí da aventura do mundo. É bizarro! Você pega livros de referência com, por exemplo, os melhores roteiros de trekking da América do Sul e lá vai encontrar trilhas no Peru, Bolívia, Chile, Argentina e nada, absolutamente nada no Brasil! É como se não existíssemos, sendo que ocupamos 48% da área total do continente, sendo a maior parte de natureza pura. Por isso acredito no nosso potencial e vivo investindo nisso. Não acho que temos que “melhorar” nada porque a natureza já vem pronta. Precisamos enxergar nosso patrimônio natural como riqueza e não como área potencial de agronegócio, isso é o que falta. Em vez de exportar carne bovina e soja, devíamos exportar experiências e importar os dividendos que viriam dessa mudança de paradigma.

 

Se você tivesse uma mensagem para toda a comunidade SPOT Brasil, o que diria aos aventureiros profissionais e amadores, de diferentes modalidades e regiões do país? E para aqueles que não praticam atividades outdoor, qual seria seu conselho?

 

Aventurem-se! Explorem seus potenciais! Descubram seus limites físicos, psicológicos e espirituais! Viver sem conhecer a si mesmo é perda de tempo e o ambiente natural oferece o melhor espelho possível para vermos a nós mesmos sem distorções ou interferências. O homem longe da natureza não é muito diferente de uma máquina qualquer. O homem em contato com a natureza está mais próximo de si mesmo e de todo seu potencial.

 


Guilherme também escreve para o Extremos. Para assistir a seu filme na Netflix, clique aqui.


Perfeito. Que mais pessoas sigam seus exemplos!

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