INTENSIDADE

Às vezes acho que tenho um pé na depressão. Acabei de completar uma viagem de 18 dias de bicicleta numa tandem (bike dupla), com minha esposa, por mais de 700 km pelas Highlands da Escócia e não consigo comemorar. Nada deu errado. A bike não quebrou, nenhum dos dois ficou seriamente doente, o clima foi amigável, conhecemos um monte de pessoas simpáticas, comemos e dormimos bem mesmo nos vários acampamentos que fizemos, nos demos bem durante todo o percurso e, mesmo assim, tudo o que consigo sentir no momento é dúvida, incerteza e insegurança.

Agora tenho que transformar a experiência vivida, junto com todo o imenso volume de informação que acumulei e ainda vou acumular lendo dúzias e dúzias de livros, num relato de viagem que seja autêntico, verdadeiro, empolgante, instrutivo e divertido. Sei que vou passar muitos meses obcecado e enclausurado, estudando, escrevendo, pesquisando e tentando tecer com palavras uma trama complexa de experiências e sensações, recordações e percepções, informações e fatos, unindo fios individuais e solitários numa textura harmoniosa e coesa.

Será que consigo?

 

Viagem Edinburg hihlands cavallari

Em visita ao Museu Nacional em Edinburgh, vimos essa bike de quatro lugares e já começamos a imaginar outra viagem, com mais duas pessoas. Quem topa?

 

Mas por que me imponho tanta pressão? Por que transformar uma viagem – que para a maioria é sinônimo de férias, diversão e lazer – numa mistura de circo, laboratório e sessão de psicanálise? A resposta simples – porque esse é meu trabalho, porque desejei ser (e agora sou) um escritor de literatura de viagem – não me basta. Rótulos não são a origem dos problemas.

De um lado, gosto de desafios. Viajar, para mim, é um processo de mapeamento no qual, além de mapear a geografia por onde passo, desenho também o mapa de mim mesmo. E se viajar é minha forma de autoconhecimento, não pode haver viagem superficial.

“Você é intenso!”, diz Adriana, minha esposa, e fico sempre esperando que ela complete a frase com o advérbio “demais”, que felizmente até hoje não veio. Tenho medo que ela não aguente essa minha intensidade. Às vezes nem eu mesmo me aguento.

 

Viagem bike tandem Cavallari

Abrigo nas trilhas das Highlands, na Escócia

 

DESCANSO, PRAZERES E PENITÊNCIAS

Desde o último post no blog, quase uma semana atrás, não pedalamos mais. O clima virou quando estávamos em Ullapool, começou a chover com frequência, a temperatura caiu, mas o que de verdade nos desanimou foi a perspectiva de pedalar por uma movimentada rodovia estreita de asfalto, por 100 km em no máximo dois dias, até Inverness apenas para pegar um trem até Edinburgh. Pegamos um micro-ônibus com um trailer para bicicletas acoplado atrás e não nos arrependemos.

Em Inverness começamos a recuperar os quilos perdidos durante o pedal, comemos melhor do que vínhamos comento até então, bebemos vinhos e cervejas artesanais, caminhamos pelas ruas mais turísticas da cidade. Visitamos o Victorian Market, um mercado em forma de galerias cobertas construído em metal e madeira em meados do Século XIX. Em outra rua entramos numa livraria de livros usados, um sebo, instalado há décadas numa antiga igreja. Leakey’s é um estabelecimento tradicional que merece uma visita de gente que, como eu, idolatra livros.

De volta a Edinburgh, ao mesmo hotel onde já havíamos nos hospedado duas noites no começo da viagem, sentimos como se estivéssemos voltando para casa. Depois de tantos lugares novos e desconhecidos, um pouco de familiaridade foi como um afago materno.

Descansamos, dormimos um pouco mais, experimentamos comidas e bebidas. Levei a Adriana para conhecer uma loja de queijos, embutidos, pães artesanais e saímos de lá com uma baguete rústica, queijo de cabra cremoso, toucinho defumado de javali selvagem e tomates secos frescos mergulhados em azeite de oliva, sentamos num banco na praça de Grassmarket e comemos ouvindo extremistas cristãos pregando o evangelho de cima de um minúsculo palco de concreto. Esse espaço existe para que qualquer um possa dar seu recado.

Apesar do barulho ser incômodo e de eu acreditar que a melhor fé, por definição, é individual e silenciosa, achei interessante a diferença no discurso de radicais evangélicos escoceses e brasileiros. O pregador que urrava com a Bíblia na mão em Grassmarket anunciava o fim do mundo, o Juízo Final, a existência do inferno para os adúlteros e mentirosos, mas, ao mesmo tempo, berrava que “somos todos iguais aos olhos de Deus, brancos, negros, asiáticos, homens, mulheres, homossexuais ou heterossexuais”. O problema estava em trair a esposa e, não coincidentemente, enquanto ele se esguelava sua esposa, com uma bebê num carrinho, pontuava o discurso com vários “Amém!”

Outro pregador bíblico foi além e bradou aos quatro cantos, para meu deleite e surpresa, que “não existe igreja, Jesus nunca desejou que se criasse uma instituição em seu nome, mas que houvesse uma comunidade cristã vivendo os valores cristãos de igualdade, fraternidade e compaixão”. Esse pelo menos parece que leu e entendeu a Bíblia, concluí.

 

 

CONCLUSÃO

Sei que muita gente espera uma conclusão, um balanço final, ao término de uma viagem como essa. Sinto muito, mas acho que vou desapontá-los. Estou longe de concluir qualquer coisa, muito pelo contrário. Sinto que preciso digerir tudo o que vi, vivi e ainda estou vivendo no que diz respeito às Highlands da Escócia. Então tenham paciência! Daqui a um ano, quem sabe, eu talvez tenha um livro e um filme que me ajudem a dizer tudo o que penso…

 

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