Esse texto marca a estreia da parceria do Mochilando com Elas com o SPOT Blog e foi escrito pela Anazélia, uma das três amigas integrantes do grupo.

 

Dois dos 10 maiores cumes do Brasil estão no Parque Nacional do Caparaó, na divisa entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Do lado capixaba, o irmão famoso, o Pico da Bandeira, com 2.891 m de altitude, a 3ª maior montanha do Brasil, atrás apenas do Pico da Neblina e seu vizinho 31 de Março, ambos no Amazonas. Do lado mineiro, o irmão esquecido, o Pico do Cristal, o 6º mais alto do Brasil, com 2769 m.

Depois de sucessivas viagens do Espírito Santo à Serra da Mantiqueira, movidas como que por um feitiço por aquele lugar e dependentes da sensação que aquela cadeia de montanhas nos causa, resolvemos voltar nossa atenção novamente para o quintal da nossa casa, a Serra do Caparaó. A ideia inicial era repetir um roteiro clássico que temos feito todos os anos: chegada ao parque durante o dia, acampamento e um pouco de descanso, ascensão ao Pico da Bandeira durante a madrugada, alvorada no cume, descida com sol a pino. A disputa acirrada pelas vagas nos locais de camping do parque acabou frustrando esses planos. E esse imprevisto rendeu uma excelente desculpa para realizar uma ascensão que eu já vinha namorando há meses: o Pico do Cristal. Resolvemos fazer o roteiro de forma independente. Procuramos tracklog aqui e ali, conversamos com amigos que já estiveram lá e, dentre as duas rotas sugeridas, resolvemos fazer a subida a partir do lado capixaba.

Ah, o lado capixaba! Quem se depara pela primeira vez ao ler esse texto com a comparação entre o lado capixaba e o lado mineiro do Parna do Caparaó pode imaginar que estou apenas puxando a brasa pra nossa sardinha. Mas procure mais opiniões a respeito e você verá que é quase unanimidade: o lado capixaba tem algo diferente! É hipnotizante e de beleza extraordinária!

 

Pico do Cristal

Pico do Cristal

 

Subimos durante o dia, o que permitiu que o tempo todo tivéssemos a vista de todos os contornos da serra, e dos mares de morro depois dela, e depois, e depois. O dia estava absurdamente lindo, com céu claro e vento infinitos. Vento, muito vento. Quando passávamos pela crista da montanha, era preciso se equilibrar e andar com os pés espaçados para não ser derrubado pelo vento.

Antes mesmo que precisássemos conferir novamente no tracklog, uma marca no caminho. Um grande X numa pedra indicava a intercessão entre a trilha que vai pro Bandeira e a trilha que leva até o Cristal. Seguimos pela esquerda, um pouco antes do Calçado, em direção ao alvo do dia. Apesar de muito simples, essa trilha é pouquíssimo frequentada, o que demanda um pouco de atenção e uma constante busca visual por totens ou trechos na laje de pedra que tenha a coloração um pouco mais clara, indicando que vez ou outra tem alguém passando por ali. Uma boa leitura de terreno ajuda nos trechos em que nenhuma dessas marcas está disponível. ‘Escalaminhadas’ pedra acima e pedra abaixo. Nessas partes é preciso usar as mãos e os pés ao mesmo tempo e lembrar de como éramos ágeis na infância.

Alguns relatos disponíveis na internet supervalorizam a dificuldade técnica da ascensão ao Pico do Cristal. Embora não seja essa coisa toda, é aconselhável que iniciantes contratem um guia. Condições desfavoráveis como vento, neblina ou até mesmo uma mudança brusca no tempo podem trazer risco. Além do que, qualquer medo de altura além do normal pode travar a subida.

 

 

Ali mesmo, na base do Cristal, resolvemos fazer o primeiro lanche do dia. Paramos por cerca de 20 minutos, com os olhos em direção ao Pico da Bandeira vendo a multidão que se revezava no cume. Durante todo o dia, grupos vindos do ES e de MG passavam por lá. Às vezes retornavam, às vezes desciam em direção ao outro lado, para realizar a cada vez mais famosa Travessia de Portaria a Portaria.

Alguns trechos de pedra depois, estávamos no cume do Pico do Cristal. O vento era tão forte que mal conseguíamos conversar um com outro. Bem próximo ao marco do cume, uma evidência de que o Cristal não é nem de longe tão visitado quanto o Bandeira. Um aparelho GPS esquecido ali desde fevereiro teria sido facilmente visto por outras pessoas que tivessem subido. Mas estava intacto, descansando durante meses sobre o marco do IBGE que localiza o ponto mais alto daquela montanha.

Fizemos fotos, gravamos algumas cenas do vento de 40 Km/h que soprava o cume da montanha naquele momento e apreciamos a vista. De um lado, a cidade de Alto Caparaó – nem nuvens baixas havia nesse dia, e era possível ver ruas e construções na cidade. De outro lado, o Pico da Bandeira, com dezenas de pessoas subindo e descendo a todo tempo. De lá do Cristal se vê a torre de metal e o cruzeiro que compõem a paisagem do Pico da Bandeira.

Nesse momento, quando você alcança o ponto mais alto da missão daquele dia e se delicia com a vista que seus olhos nem com toda a criatividade do mundo imaginavam ver, uma sensação de profunda paz preenche a mente. Acho que é por conta dessa sensação que subimos montanhas. Mas não quero tirar nenhuma conclusão sobre esse porquê. O ‘não saber por que’ é um dos fatores que torna mágica a nossa presença nesses lugares.

Na descida, decidimos cortar caminho pelo vale e procurar uma linha que permitisse que a gente alcançasse a trilha sem ter que subir novamente o Calçado. E achamos. Uma linha não muito boa, com mais subidas do que a gente esperava! Hahaha. Algumas espetadas de bromélia depois, estávamos novamente na trilha principal retornando pro acampamento da Casa Queimada – o acampamento mais alto do lado capixaba.

 

Já no acampamento, escolhemos um cantinho pra ligar o nosso fogareiro e esquentar a comida pronta que tínhamos levado. Almoçamos e depois de uma passadinha na Cachoeira da Farofa, encerramos nossa passagem pelo parque.

À noite, descanso numa hospedagem cama e café na propriedade de uma família da região. No dia seguinte, retornamos logo cedo pra Vitória. Tudo simples e tudo maravilhoso.

Agora, pra mim e pra Stephanie, dos 10 cumes mais altos do Brasil faltam apenas as ascensões ao Pico da Neblina e ao 31 de Março, respectivamente o 1º e o 2º pontos mais altos do país. Não por acaso, eles ficaram por último. A logística certamente é a mais complicada entre os 10 cumes. Vôo até o Amazonas, deslocamentos em estradas de terra e quilômetros rio acima em voadeiras. Além de um ajuste necessário com Funai e ICMBio. Esses dois estão nos nossos planos pro ano que vem! Quando acontecer, vocês poderão acompanhar tudo pelo nosso Spot Gen3 e sentir conosco a emoção dessa empreitada.

Mais uma daquelas jornadas que comprovam que ‘as melhores coisas da vida não são coisas’!
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