Desafio XTerra em Maui – Hawai

Desafio XTerra em Maui – Hawai

Publicado em 6 de Janeiro de 2017 por Tiago Brant

Imagine-se fazendo força num terreno difícil, incerto e maravilhoso… Esse é o Xterra, a versão rústica do triatlo que nasceu na ilha de Maui, no Havaí, há vinte anos (1996) e rapidamente se espalhou pelo mundo.

Na verdade, a história do Xterra começa na origem do triatlo, em 1974, no San Diego Track Club, um clube de atletismo em San Diego, na Califórnia. Durante as férias dos atletas, o treinador os incentivou a praticar ciclismo e natação, como forma de diversificar os estímulos musculares e proporcionar um apouco de diversão ao time. A tarefa envolvia nadar 500 metros na piscina do clube, pedalar 12 quilômetros no condomínio fechado ao lado do clube e, finalmente, correr 5 quilômetros na pista de atletismo. A turma gostou tanto da novidade que quis repetir a dose nos anos seguintes, desafiando os “imbatíveis” bombeiros de San Diego. A prova teve 55 participantes e os atletas levaram nítida vantagem. Para as férias seguintes, em 1976, os salva-vidas propuseram algumas modificações: natação no mar, com aproximadamente 700 metros, ciclismo na avenida da praia e arredores, com 15 quilômetros de distância, e corrida em trilhas com 4,5 quilômetros. Neste mesmo ano a prova foi repetida por três vezes, caindo na graça dos atletas e se tornando uma modalidade específica com nome próprio: Triatlo, derivado da palavra grega Triaousithlon, que significa um evento atlético composto por três modalidades.

Rapidamente a nova modalidade virou febre nos Estados Unidos e inspirou aquela que seria a primeira grande competição de Triatlo, criada por um comandante da marinha americana residente no Havaí, John Collins, durante uma confraternização com os colegas que haviam acabado de completar a maratona de Waikiki, em Oahu. A ideia era descobrir quem seriam os atletas mais resistentes da ilha: nadadores, ciclistas ou corredores. Para isso, o desafio proposto seria uma combinação de três provas já existentes, que deveriam ser completadas em sequência: “The Waikiki Rothwater Swim” que compreendia aproximadamente 3,8km de natação, a “The Around Oahu Bike Race” que originalmente acontecia em dois dias e percorria aproximadamente 180km de bicicleta e, pra finalizar, a Maratona de Honolulu. “Quem terminar a prova em primeiro lugar será chamado o homem de ferro”, disse Collins.

No dia 18 de fevereiro de 1978, em pleno inverno havaiano, 15 atletas alinharam para a disputa, mas apenas 12 completaram. O vencedor foi Gordon Haller, com Collins em segundo. Este primeiro “homem de ferro” nadou os 3,8 km em 1h20min, pedalou os 180 km em 6h56min e finalizou a maratona em 3h30min, totalizando o tempo de 11h46min. Engraçado, porque mais de trinta anos depois, eu faria meu primeiro Ironman, na ilha de Florianópolis, como tempo de 11h53min, que teria sido pódio em 1978!

 

 

Mas o assunto aqui é o Xterra, uma versão mais curta do Ironman, também surgida no Havaí, desta vez na ilha de Maui, só que em trilhas e não no asfalto.

Meu primeiro Xterra também foi numa ilha, só que no Brasil, mas não em Floripa e sim em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo.

O Xterra de Ilhabela é uma das etapas mais tradicionais do circuito mundial, com dez anos de existência. Por conta de seus morros e encostas, é considerada por muitos a etapa mais difícil do circuito e ficar entre os primeiros colocados de cada categoria significa uma vaga no mundial de Xterra, lá em Maui, no Havaí, onde tudo começou. Esse era um objetivo que passava longe das minhas intenções, já que minha ideia era filmar a prova por dentro, sem qualquer pretensão de pódio. Mas, mesmo chegando quase duas horas depois do primeiro colocado, conquistei a quarta colocação na minha categoria e consegui a vaga para o mundial do Havaí… Incrível!

Maui é uma verdadeira explosão de cores no meio do Oceano Pacífico. Por conta de seus enormes vulcões, com destaque para o  Haleakala, com 3.055 m de altitude, muitas das nuvens que viajam pelo Pacífico se enroscam nas montanhas de Maui proporcionando chuvas constantes, entremeadas por muito sol, temperaturas altas nas partes baixas e frias no topo das montanhas. Resultado? Uma profusão de arco-íris, todos os dias, em todos os cantos da ilha.

 

 

Por conta desses e outros encantos, Maui é repleta de resorts de luxo e campos de golfe, como os que existem em Kapalua, no oeste da ilha, onde acontece o Xterra. O surfe também é intenso nessa época do ano, com picos mundialmente conhecidos como Jaws e Honolua Bay, este bem perto de Kapalua. Mas eu estava lá para praticar outro esporte e, ao invés de levar minha prancha, levei minha bike, meus óculos de natação e meus tênis de corrida. A ideia, lógico, era participar da final mundial do Xterra.

Esta seria a vigésima primeira edição do Xterra Maui, a final mundial do circuito de Triatlo Rústico mais tradicional do planeta.

Os 800 melhores atletas do mundo estaríam presentes, vindos de todas as partes do mundo, inclusive do Brasil, que contava com a terceira maior delegação em Maui, mais de 40 atletas classificados em Ilhabela, incluindo o campeão brasileiro, o paranaense Felipe Moletta e a segunda colocada no ranking feminino, a mineira Isabella Ribeiro.

Não seria fácil. Isso todo mundo já sabia, porque os dias que antecederam a prova foram de muita chuva, principalmente nas encostas de Kapalua, onde ficam as trilhas por onde passaríamos. Pra complicar, uma enorme ondulação atingiu a ilha de Maui exatamente no dia da prova…

Pouco antes da largada, alinhamos nossas bikes na área reservada, um gramado extenso em frente ao hotel Ritz-Carlton, em Kapalua, e os principais concorrentes ao título estavam praticamente ao meu lado, com suas bikes incríveis à mostra.  A minha também era incrível, uma Trek Top Fuel 9.8 azul calcinha, com meu SPOT Gen3 preso ao selim. Fiz um último check-list dos equipamentos necessários para a parte da bike e da corrida, incluindo minha câmera GoPro e meus saquinhos de carboidrato em Gel da Honey Stinger, coloquei meus óculos e minha touca de natação e fui pra praia aguardar a largada que acontece após uma singela cerimônia com um guru local nas areias da praia em frente ao resort, a D. T. Fleming Beach, que tem esse nome em homenagem ao homem que introduziu a cultura de abacaxis na região oeste de Maui.

A largada aconteceu por partes, com os profissionais em primeiro e os grupos por idade na sequência. Incrível a dificuldade que o pessoal tinha em varar as grandes ondas que quebravam na beira da praia no dia da largada… mas ondas foram uma boa notícia pra mim! Ao contrário dos nadadores de piscina, eu estava acostumado com grandes ondulações e levaria vantagem na natação.

 

 

Mas a realidade não foi bem essa. Depois de engolir muita água respirando entre as grandes ondulações que entravam na baía de Kapalua, terminei a natação em 32 minutos e peguei um belo jacaré para chegar na praia entre os 350 melhores nadadores (347º). O australiano Courtney Atkinson foi o primeiro a pisar na areia, com apenas 20 minutos de natação…

Perdi pouco mais de cinco minutos na transição entre natação e bike. E foi então que a guerra começou! O circuito de bike sobe de forma constante desde a primeira trilha, saindo da área reservada. Por conta da chuva, o terreno estava muito escorregadio e foi difícil manter a bike no prumo. Assim como todos os outros atletas, incluindo os primeiros colocados, tomei vários tombos durante o percurso, mas isso não foi o pior. Durante a primeira parte do caminho, foi quase impossível pedalar. Os pneus acumulavam lama e travavam a todo o instante. Era preciso descer da bike e passar um bom tempo tirando a lama cumulada nas rodas, repleta de galhos e folhas, antes de subir novamente na bike e em seguida descer novamente porque a lama insistia em invadir rodas, freios e suspensões. Achei que fosse demorar uma eternidade para cruzar os 32 km de pedal, mas do meio para o final da bike já foi possível acelerar pelas ladeiras de Kapalua, enquanto o solo secava. Depois de 3h47min, mais 6 minutos e meio de transição, coloquei os tênis de corrida e parti para fase final da prova enquanto vários atletas já completavam o desafio.

A essa altura, o mexicano Maurício Mendez, com apenas 21 anos, já tinha feito história conquistando a coroa de campeão do Mundial de Xterra (2h49min), assim como Flora Duffy, das Bermudas, que conquistou seu terceiro título seguido no Xterra feminino (3h15min). Pra você ter uma ideia de como esse tempo é forte, na classificação geral ela chegou em 25º, deixando a segunda colocada Lesley Paterson 10 minutos pra trás! O melhor brasileiro, Felipe Moletta, terminou em 15º na geral (3h07min) e a melhor brasileira, Isabella Ribeiro, em 18º (4h26min). Mas enquanto os campeões comemoravam, eu ainda tinha 10km de corrida pra terminar a prova…

Não havia opção. Ou eu terminava a corrida, ou ela terminava comigo! Para minha sorte, o terreno já estava seco a essa altura do campeonato e não tive grandes dificuldades para correr. Quer dizer, dificuldades não faltaram, com as pernas e a mente já cansadas… Pra complicar, foram 5km subindo e mais 5km descendo, que eu completei em 1h29min, chegando ao final do desafio em 6h02min!!! Duas horas a mais do que em Ilhabela, o que me rendeu a 66ª colocação na minha categoria e a 596ª na classificação geral!

Só que a sensação era de vitória. Chegar ao mundial de Xterra e completar o percurso sem danificar minha bike ou meu corpo foi um saldo altamente positivo e, como diria o barão Pierre de Coubertin, criador das Olimpíadas Modernas, “O que importa nos Jogos Olímpicos não é vencer e sim participar. O que importa na vida não é o triunfo, e sim a luta.” Lutei muito e pretendo lutar ainda mais em 2017. Um ano novo repleto de novas aventuras para todos nós!!!

 

Veja também o vídeo da prova!

 


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