Herois de um carnaval argentino

Herois de um carnaval argentino

Publicado em 16 de Março de 2017 por Israel Coifman

A viagem de Nono a Merlo, trajeto de cerca de 80 km foi interrompida pelo clima. O calor de 40 ºC castigava e as nuvens carregadas assustavam. Influenciado pela recente experiência com a chuva forte em Altas Cumbres, decidi procurar refúgio. Com apenas 40 km percorridos o corpo já estava pesado e, chegando a San Javier, fui à Igreja ver se poderia passar a noite lá. O padre me disse que os bombeiros poderiam me alojar melhor e mais uma vez fui bem recibido por esses herois, que aqui na Argentina são voluntários.

 

No Quartel

Não precisei armar barraca nem tirar o saco de dormir dos alforjes. Havia um alojamento com cama, além de chuveiro com água quente e uma cozinha à minha disposição. Cansado, tomei banho, preparei um macarrão e fui deitar antes das nove da noite com o objetivo de sair antes das sete da manhã para escapar do forte calor. Em Merlo seria recibido por uma família indicada pelos amigos que me hospedaram em Río Tercero.

 

Acordei as seis da manhã e o céu anunciava a chuva que não veio no dia anterior. Raios e relâmpagos diziam o que estava por vir, mas mantive o otimismo e tomei meu café da manhã, arrumei as coisas e esperei um pouco para ver o comportamento do clima. Desta vez a previsão do tempo falhou e o esperado dia ensolarado deu lugar a um temporal digno para ficar em casa no sofá vendo um filme. Eu não tinha mais casa, nem sofá. Eu estava num quartel numa cidade minúscula, em outro país e o mínimo que eu poderia fazer para retribuir a habitual cortesia dos Bombeiros era conversar e contar um pouco sobre o que um brasileiro em bicicleta fazia ali.

 

 

Chamada de Emergência

Preparei meu café, mas Miguel, Aron e Lorena, os únicos de plantão, preferiram seguir com o mate. Um das situações mais interessantes ao viajar em bicicleta é ver os olhos incrédulos dos que escutam a sua história. Ao contar-lhes que desci o litoral sul do Brasil, percorri toda a costa do Uruguai antes de entrar na Argentina e venho pedalando o país desde Buenos Aires por mais de mil quilômetros, é como ter a atenção de uma criança que descobre algo pela primeira vez.

Enquanto narrava a minha saga que estava prestes a completar três mil quilômetros veio uma chamada pelo rádio. Em dias de chuva o plantão está mais acostumado aos desmoronamentos ou quedas de árvores, mas a ocorrência era de fogo: um incêndio estrutural em uma casa distante oito quilômetros dali. Lorena correu da cozinha ao escritório e um alto alarme começou a soar. Eu entrei em alerta, queria fazer algo. Queria subir no caminhão e ajudar de alguma forma. Em instantes, enquanto olhava para os lados e esperava um momento em que eu pudesse apurar melhor o que acontecia, surgiu uma dezena de bombeiros. Vieram de carro, moto e correndo. Rapidamente se vestiram e se equiparam com a indumentária de campo. Corriam e agiam como se fossem salvar a vida de suas próprias famílias. Não consigo precisar o tempo, mas acredito que não tardou mais de dois minutos depois do chamado para os caminhões estarem na rua. O comprometimento desta gente e a forma que reagiram ao chamado me deixaram estarrecido.

 

Sem holofotes, sem glamour, por amor

Um curto circuito destruiu mais de 50% de uma casa onde viviam um casal com um bebê. O fogo foi apagado e ninguém se feriu. Eles voltaram com a missão cumprida trazendo de volta o sol. Sentei à mesa com eles como se fosse parte da corporação. Apenas testemunhei a tensa saída e o retorno calmo após o dever realizado. Dever cumprido de forma voluntária. Os heróis foram descansar e eu peguei estrada no dia seguinte rumo a San Luis.

 

viagem de bicicleta israel coifman

 

Quando viajamos por lugares tão imponentes como as serras de Córdoba, não fazemos muita coisa além de contemplar. Mas basta um desvio para vermos outra realidade. Carlos ganha a vida como caminhoneiro, mas é com a farda de bombeiro e com o espírito voluntário que ele se transforma em heroi. No costado de cada estrada há histórias ainda mais belas que as paisagens que atravessamos. Viajar com a mente livre e aberta te coloca em lugares que jamais poderia imaginar, como pernoitando em Corpos de Bombeiros e diante de pessoas que não conseguirás esquecer, como Carlos, Lorena, Miguel, Aron e tantos outros.

 


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