Paisagens surreais na altitude do Paso de San Francisco

Na primeira etapa da nossa volta ao mundo de carro, cruzamos por destinos fantásticos entre os extremos das Américas. Entre as diversas paisagens as quais nos deparamos no continente americano, o Paso de San Francisco nos apresentou os cenários mais surpreendentes em sua altitude.

Saímos de Copiapó sem saber o que nos esperava. Um amigo brasileiro, famoso montanhista e detentor de inúmeras proezas em alta montanha, nos havia recomendado um caminho entre o Chile e a Argentina.

Não conhecíamos nada sobre esta região, nem por fotos, e fomos desbravá-la sem muitas expectativas. Mal sabíamos que estávamos a poucos quilômetros de um dos trechos mais épicos de todo o altiplano andino.

O Paso de San Francisco interliga Copiapó à cidade argentina de Fiambalá, com trechos de até 4.726 metros acima do nível do mar. Nesta travessia, pudemos experimentar os dois lados da altitude, de seus cenários surpreendentes à sua força devastadora sobre nossos corpos.

Enchemos bem o tanque e o galão de combustível, já que nos mais de 450 quilômetros cordilheira adentro não existem postos de gasolina. Partimos.

Logo, o cenário mudou completamente. As casas sumiram, a completa aridez tomou conta da paisagem. Então as montanhas da Cordilheira dos Andes ergueram-se à nossa frente. Num instante, ascendemos a uma altitude de três mil e quinhentos metros, percorrendo desfiladeiros empoeirados e fumegantes de dois quiômetros lá embaixo.

Viajamos bem devagar, contemplando a paisagem em uma subida ininterrupta. Começamos, aos poucos, sentir o ar rarefeito. Um cansaço exagerado surgia após uma pequena caminhada ou um movimento mais brusco.

Um dos pontos altos do Paso de San Francisco

Tanto quanto nós, o Mochileiro, nossa Land Rover Defender 110, estranhou os efeitos da altitude. Sentimos um cheiro forte de fumaça e paramos para verificar. Levantamos o capô do carro e saía muita fumaça, ao mesmo tempo em que motor estava extremamente quente.

Ficamos um bom tempo esperando o motor esfriar para verificarmos a água. Após trinta minutos parados na estrada, sem cruzar uma alma viva, apareceu um simpático caminhoneiro e nos ofereceu ajuda. Ele levava muita água e nos auxiliou a conferir se estava tudo intacto.

Descobrimos que havia sido somente um susto. O Mochileiro estava bem e tinha queimado apenas um excesso de óleo que havia vazado. De qualquer forma, no restante do trajeto, parávamos a cada trinta minutos para deixá-lo esfriar um pouco e conferir a água. Certamente, ali não era um bom lugar para termos um problemas mais sérios, já que a altitude e a falta de suporte poderiam nos deixar ilhados por várias horas ou até mesmo dias.

Ainda precisávamos cruzar a fronteira para a Argentina neste dia. Por isso, tratamos de apertar um pouco o passo para chegarmos antes do controle migratório fechar as portas.

Conseguimos chegar antes das seis da tarde, mas já não era mais possível passar. Nos restava dormir por ali mesmo, a quatro mil metros de altitude, e aguardar pela reabertura da fronteira na manhã seguinte.

Mochileiro praticamente some em meio à imensidão da Laguna Verde

Esta foi uma daquelas noites que nunca mais esqueceremos em nossas vidas. Acampados ao lado da fronteira, um frio de estalar e muita falta de ar. Abríamos a janela para respirar melhor e não conseguíamos aguentar o frio. Fechávamos a janela para segurar o frio e sentíamos uma falta de ar incrível. Que noite! Talvez a mais emocionante da viagem até então, aquela que não víamos a hora de terminar.

No dia seguinte, ficamos muito felizes por não termos seguido viagem antes. Quantas maravilhas naturais estavam escondidas em um pequeno trecho e, provavelmente, passaríamos batidos no escuro.

Ainda no lado chileno, a poucos quilômetros da demarcação fronteiriça, encontra-se, se não a mais bonita, uma das mais desconcertantes lagunas altiplânicas de toda a Cordilheira dos Andes, a Laguna Verde.

Uma verdadeira miragem em meio à uma paisagem tão desértica. Além de sua beleza, o que mais nos impressionou foi a sua solidão. Uma laguna tão magnífica e nenhum turista. Estávamos a sós em meio àquela imensidão de água salgada, a mais de quatro mil e trezentos metros de altitude, rodeados por uma das paisagens mais surreais da América do Sul.

A pouquíssimos quilômetros da Argentina tivemos uma outra incrível surpresa. Passamos ao lado do maior vulcão do mundo e segunda maior montanha da América do Sul, o Ojos del Salado, com seus imponentes 6.893 metros. Já havíamos lido inúmeras histórias desta mística montanha andina e conhecê-la de frente foi a realização de um grande sonho. Considerada uma montanha de ascenso muito arriscado, o Ojos del Salado, desde que foi escalado pela primeira vez, em 1937, já levou mais de trezentas vidas de montanhistas.

Cruzamos para a Argentina e a paisagem mudou completamente. Engraçado como a natureza compreendeu os limites fronteiriços e decidiu criar cenários distintos de um lado e do outro.

Terra Adentro SPOT Blog Punas

Mochileiro em frente às lindas Punas, vegetação típica dos altiplanos andinos

No lado Argentino do Paso de San Francisco predominam as Punas, a vegetação rasteira característica dos altiplanos andinos. É tão linda que mais se parece um tapete amarelo, revestindo as montanhas.

Ao passo que do lado chileno somente subimos, do lado argentino as descidas eram intermináveis, até alcançarmos a cidade de Fiambalá, para enfim respirarmos novamente.

O Paso de San Francisco foi uma das mais incríveis aventuras que vivemos entre os extremos da Cordilheira dos Andes. Seguimos viagem pela Argentina e ainda voltaríamos ao Chile mais uma vez, cruzando novamente as montanhas e os altiplanos andinos.

Mais histórias da nossa jornada pelo mundo podem ser acompanhadas também em nosso site www.terraadentro.com.

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