Mais que um voo: 400 km pra ficar na memória

CONTEXTO

Um dia, em meados de 2005, me convidaram para aprender o voo de asa-delta. Eu imediatamente aceitei. Como a maioria das pessoas, àquela altura eu não tinha a mais vaga ideia de que fosse possível, por exemplo, viajar por centenas de quilômetros pendurado em uma asa, ‘surfando’ as ascendentes térmicas e navegando pelo vento – tudo isso sem usar nenhum motor. Cresci em contato com as montanhas do Rio, vendo quase todo dia as asas deslizando lentamente pelo céu de São Conrado, perdendo altura e pousando suavemente na praia.

Para mim, até então, o esporte era aquilo ali; e só fui entender exatamente onde estava me metendo – toda a proporção dos ‘super poderes’ envolvidos – quando já estava no meio do curso. Ali se iniciou um longo e intenso relacionamento com o voo livre, esporte que mudaria minha vida, proporcionaria muitas emoções e várias outras descobertas.

O ‘HAWAII DO VOO LIVRE’

Como em um piscar de olhos, mais de uma década se passou até que eu tivesse a oportunidade de voar pela primeira vez nas fortes condições do árido sertão nordestino, em novembro de 2016. Ao lado do amigo Marcelo Abbott, de Natal (RN), tive o privilégio de produzir a série Revoada, para o Canal Off, voando em equipe liderados pela lenda Beto Schmitz – nosso ídolo, nada menos que 8 vezes campeão brasileiro.

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Revoada foi a trip dos sonhos

Foi a ‘trip dos sonhos’: durante 25 dias de expedição, conhecemos algumas das melhores rampas do Brasil, em seis estados da Região Nordeste. Entre elas, estava Tacima, na Paraíba, reconhecida internacionalmente por recordes de distância, tanto de asa-delta quanto de parapente. Menos de um mês antes, o Andre Wolf e o Glauco Pinto tinham estabelecido o recorde mundial com inacreditáveis 612km partindo dali mesmo.

Naquela minha primeira vez em Tacima (PB), por conta do cronograma das gravações e da sequência da rota de travessia, pudemos fazer apenas um voo decolando de lá, em um dia de condições marginais para a média do lugar. Desde então, sempre esteve nos planos voltar lá para tentar voos ainda mais longos do que aqueles emocionantes 222km até Patu, no Rio Grande do Norte – emoções reservadas para o 7o episódio da Revoada, em breve no Off.

O RETORNO

Muita coisa aconteceu nos meses seguintes e cheguei a duvidar de que seria possível voltar tão rápido. Mas um ano depois, lá estava eu, cumprindo o objetivo de atravessar novamente o país de carro até o Nordeste. Desta vez, consegui trazer o bom e velho amigo João Bauvoi, um dos que aprendeu a voar junto comigo no Rio. Em Natal (RN), reencontramos o Marcelo e finalmente partimos para Tacima, onde um time forte – todos amigos e conhecidos – já vinha fazendo altos voos há algumas semanas.

Em Araruna (PB), onde todos tradicionalmente se hospedam, grande parte das atenções estavam voltadas para a campeã mundial e alemã Corinna Schwiegershausen, que há pelo menos duas semanas tentava realizar os 405km de Tacima (PB) até Juatama (CE), distância que lhe daria o novo recorde mundial feminino. O amigo carioca Konrad Heilmann, provavelmente o piloto com mais horas de voo no planeta, também estava há alguns dias no sertão e feito alguns voos, sendo o mais recente de 380km, em que quase chegou ao objetivo no Ceará. Completaram o time do Rio os amigos Fabio Thomaz ‘Macaé’ e o Guto de Freitas. O Fábio já tinha feito a ‘ponte aérea’ para Juatama (CE) no ano anterior, enquanto o Guto estava pela primeira vez voando em Tacima.

Chegamos animados. Apesar de não parecer a melhor das temporadas (os recordistas mundiais do ano anterior nem vieram), as condições vinham evoluindo nos últimos dias e a previsão para a semana era a melhor até então, com o vento mais definido vindo de sudeste, jogando o voo exatamente na rota boa para Juatama, que é o conhecido pouso oficial de Quixadá, o mais tradicional pico de voo livre do Ceará.

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Pousado em Currais Novos

OS VOOS

O primeiro dia foi um ótimo aquecimento. Conseguimos sair bem da região da rampa, mas a maioria das pessoas foi pousando nos arredores de Santa Cruz (RN) e Campo Redondo (RN), antes dos 80km de voo. Sozinho em voo e com o vento entortando um pouco de leste decidi entregar para a esquerda e pousei com segurança cedo, antes de meio-dia, no aeroporto de Currais Novos (RN). Não conhecia a rota tradicional por cima do platô de Lagoa Nova (RN) para seguir bem sozinho e era apenas o primeiro dia. Achei que valia mais a pena a certeza de retornar cedo com os amigos e garantir o dia seguinte.

O grande obstáculo do voo de Tacima é o platô logo atrás da decolagem. Com objetivo de grandes distâncias, normalmente saímos cedo – entre 8h e 9h ou até mais antes, se os objetivos forem ainda maiores que nossos ‘singelos’ voos na casa dos 400km. Além de o horário ser mais exigente pela menor força das térmicas, o relevo elevado se torna uma barreira.

No segundo dia de voo, senti na pele o tamanho desse desafio: para não desgarrar do pelotão na primeira tirada, acabei jogando para trás um pouco mais baixo que o grupo. Com isso, acabei não engatando em nenhuma térmica em cima do platô e pousei nos arredores de Monte das Gameleiras, uma ‘pregada’ pra desmontar a asa fritando em um legítimo sol de meio-dia, apesar de ainda serem 9h. Bateu aquela reflexão sobre decisão de ter abortado o voo da véspera; e de agora ter desperdiçado mais um excelente dia. Mas faz parte. No voo, como em muitas situações na nossa vida, uma decisão pode mudar tudo. O importante é que estava seguindo meus instintos, voando em equipe, aprendendo muito sobre o sertão e, sem dúvidas, me divertindo.

A maioria dos pilotos também acabou não durando muito no voo, não evoluindo além de Lagoa Nova. A alegria ficou por conta da notícia de que o Konrad conseguiu engatar bem na condição e voou até o fim do dia com classe: incríveis 456km até Pedra Branca (CE), que renderam seu novo recorde pessoal e o maior voo registrado no ano.

O terceiro dia começou agitado, com a Corinna nervosa devido a mais um atraso na decolagem. Desta vez, o motivo foi a chave da porteira da rampa que ficara com o motorista do Konrad, que só voltaria do Ceará com ele ao final do dia. Apesar do pequeno atraso e das dificuldades, conseguimos manter o astral e ajudamos a alemã a resgatar a positividade, focando na execução do projeto dela sem pressão. Logo estávamos todos sobrevoando a rampa no ‘lift’, em busca da primeira térmica.

O início foi conturbado, exigente e turbulento; e acabou derrubando Marcelo, João e Guto. Pela primeira vez, eu e Corinna conseguimos vencer a barreira dos 100km para cima do platô de Lago Nova – uma grande chapada elevada plana, repleta de geradores eólicos que intimidam. Me separei do Fábio exatamente nessa travessia do platô, mas consegui encontrar novamente a Corinna uns 30km mais adiante. Dali, fiz questão de me manter junto e voar em equipe com ela. O dia parecia excelente e cheguei a ter certeza de que chegaríamos ao objetivo, mas aos 230km de voo, acabei ficando baixo e pousei depois de Caraúbas (RN). A Corinna seguiu um pouco mais e ficou perto de Apodi (RN), com pouco mais de 240km. Por sorte, o Konrad estava a 60km de estrada de nós, voltando, e conseguimos carona para poder voar no dia seguinte, que parecia ser o último do ciclo meteorológico bom.

O campeão do dia foi o Fabio Macaé, que mesmo voando sozinho conseguiu completar os 405km até Juatama, repetindo a façanha do ano anterior. Mandamos nosso outro carro sozinho atrás dele e voltamos em sete, ‘enlatados’ dentro de uma única caminhonete até Tacima.

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Equipe garantiu o voo no ultimo dia

O ÚLTIMO DIA

A equipe agora estava quase completa, contando ainda com os reforços dos experientes Thalis Pacheco – quem ensinou o Marcelo a voar e quem abriu a rampa de Tacima – e o experiente francês Patrick Collin, uma das maiores autoridades em voos de distância do Nordeste.

A primeira grande barreira foi novamente a chegada no platô de Lagoa Nova. Eu e Konrad ficamos na borda nos segurando poucos metros acima do relevo pegando muita turbulência, em uma área praticamente sem pouso abaixo. Ao longe, podia acompanhar Marcelo, Thalis e Corinna em um pelotão mais a oeste. Patrick se desgarrou na frente sozinho e os outros dois não conseguiram atravessar.

Em uma das poucas vezes em que ganhei alguns metros, desisti de continuar na ‘máquina de lavar’ e me atirei pra cima do platô, com pouca margem de altura. Se não batesse em nenhuma térmica, pelo menos teria melhores opções de pouso. Avisei pro Konrad no rádio que ia mandar o ‘kamikaze’ e fui. Felizmente, 2km a frente, logo na borda de uma depressão do terreno, havia uma térmica praticamente desprendendo do chão. Me agarrei nela e fui… girando, subindo e ao mesmo tempo derivando com o vento na direção da rota. Um alívio…

Tentei contato com o Konrad para saber se tinha vindo junto, mas ele respondeu alguns minutos depois reportando pouso. Eu joguei uma proa noroeste; ele forçou mais para norte e acabou pousando. Tive sorte! Minhas melhores chances estavam em tentar me conectar com o outro grupo e isso aconteceu cerca de 20km depois, poucos minutos após conseguir cruzar todo o altiplano de Lagoa Nova.

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Voo em equipe

Por volta do meio-dia, o voo se tornou mais agradável, menos turbulento e com térmicas mais definidas. O fato de estarmos em equipe tornava tudo mais prazeroso e seguro. Eu, Marcelo, Thalis e Corinna nos dividíamos na função de puxar na frente e nos espalhávamos em formação juntos durante as tiradas. Nos comunicamos bem e chegamos a fazer muita piada em voo. Voar com Thalis e Marcelo no rádio é sempre engraçado, principalmente quando as coisas estão dando certo.

Por cerca 2h30 voamos com bastante eficiência, apesar de a condição não estar das mais ‘redondas’. Um piloto servia de referência aos demais e com isso todos se ajudavam no mapeamento do ar à nossa volta. Em determinado momento, pouco antes dos 300km de voo, nos separamos do Thalis, que por vezes esticava na frente com menos altura. Pouco depois soubemos que pousou perto da BR-116, já no Ceará, com 309km voados.

Faltava menos de 100km e tudo começava a ficar mais difícil. Nos arredores de Morada Nova (CE), as nuvens que nos mostram as térmicas começaram a ficar mais raras. Com o cair do dia, as térmicas iam ficando mais fracas e mais afastadas umas das outras. O voo mudou novamente… passamos a ‘encher o tanque’ em todas as térmicas e, com o teto mais alto e mais sustentação nas tiradas, pelo menos conseguíamos evoluir no rendimento. Em uma desses longos planeios, eu e Marcelo nos afastamos da Corinna e tivemos dificuldade de reencontrar. Passamos a voar em dupla.

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Em sete horas no ar, tinha ingerido apenas uma barra de proteína biO2 na hora do ‘almoço’ e cerca de um litro de água ao longo do dia. O desgaste físico, o estresse e o desconforto de tantas horas na mesma posição começavam a aparecer novamente. Por volta das 16h20 consegui me segurar pacientemente em uma térmica fraca que me levou à maior altitude do dia: incríveis 3132m do nível do mar. O Marcelo estava numa camada mais baixa e demorou um pouco mais para subir, mas combinamos de eu ir na frente mapeando a condição. Faltavam 45km para nosso objetivo em Juatama.

Estiquei toda a asa deixei voar tentando o máximo de rendimento. É nesses planeios de fim de tarde que a gente percebe o quanto nossos brinquedos voadores são incríveis. O ar fica mais liso, com menos térmicas, mas a tendência é sustentar muito mais. A impressão é que de as camadas inferiores formam uma espécie de colchão em que a gente consegue deslizar por cima.

Já podia ver ao longe a montanha onde fica o Hotel Pedra dos Ventos, que era nossa referência para o pouso. No ‘olhômetro’ era difícil acreditar que fosse possível chegar sem outra térmica. O terreno à frente começa a ficar ermo, com matas, represas cheias e pouca estrada. Pousar ali, apesar de já ter garantido um voo incrível, daria ao dia um desfecho com resgate puramente à base de coordenada de SPOT, com possíveis grandes caminhadas carregando equipamento até um lugar onde fosse possível chegar com o carro.

Sozinho e não tão confiante, por duas vezes parei a trajetória para tentar girar em bolhas fracas que apareceram, sendo a última delas sobre o açude Pedras Brancas, faltando apenas 18km. Não rendeu muito e voltei para a trajetória original. Para minha felicidade, à medida que me aproximava, uma sequencia de pequenas convergências garantiu um rendimento muito acima do esperado e do habitual, garantindo uma chegada segura sobre o pouso de Juatama.

O sol queria se por à minha esquerda e coloria a rampa de Quixadá à minha direita. Observei aquele cenário, sobrevoar aquele hotel falando ao rádio com os amigos que nos esperavam e nos davam boas vindas foi uma emoção como poucas que tive na vida. Enquanto os olhos esboçavam uma lacrimejada, aproveitei os últimos minutos em uma leve ascendente que ainda mantinha o ar subindo nos arredores do pouso, me sentindo grato e privilegiado por viver tudo aquilo.

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Visual chegada em Quixada

Voltei a me concentrar para colocar a asa no chão da forma mais perfeita possível. Aproximei, apontei na direção do vento, acelerei e estacionei a asa. Agora sim, a missão estava encerrada. Em questão de segundos, estava cercado pelas já conhecidas crianças de Juatama, que sempre recebem os pilotos com muita animação, já que ali é o pouso oficial de Quixadá.

Abracei o Fábio e o nosso motorista ‘Choklok’. Com os pés finalmente no chão depois de oito horas, a adrenalina foi baixando e mais dores e contraturas foram aparecendo. Foi o tempo de eu ‘jantar’ outra barra de proteína, tomar outros goles de água e lá estava o Marcelo sobrevoando nossas cabeças. Vibramos com ele no rádio. Ele deu alguns rasantes no hotel e pousou com a gente.

A alegria foi completa com a chegada da Corinna – uma verdadeira guerreira, que voou cerca de 60km sozinha atrás de nós e conseguiu o recorde mundial feminino no limite do pôr-do-sol (*). Pousar minutos mais tarde poderia anular a homologação da sua marca, mas ela conseguiu superar o feito que já durava mais de 15 anos.

Poucos minutos depois soubemos que o Patrick pousara bem próximo de nós, fazendo nada menos que sua 11a ‘ponte-aérea’ Tacima-Quixadá/Juatama. O roteiro não poderia ter sido mais emocionante! Todos felizes e realizados, nos últimos minutos de sol do nosso último dia de voo possível.

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Marcelo, Corinna, Alipio e Fabio em festa

Entre um brinde e outro no jantar, o papo nos levou a lembrar um pouco da nossa perspectiva de iniciantes, 12 anos antes. Divagamos sobre a loucura que foi passar o dia inteiro no ar, navegar entre nuvens com amigos, cruzar estados e pousar em um outro pico de voo livre a 405km de distância.

Mas se quando começamos a voar não fazíamos a menor ideia do que seríamos capazes no futuro, agora tínhamos a certeza de que queremos voar ainda mais. A temporada de voo no sertão certamente tem lugar marcado no calendário para o resto de nossas vidas.

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O trajeto completo do voo

(*) No dia 02 de janeiro de 2018, menos de dois meses após o voo da Corinna, a voadora russa Sasha Serebrennikova realizou um voo de 419km de distância em Forbes, na Austrália, aumentando ainda mais a marca feminina. Corinna Schwiegershausen já declarou que pretende voltar ao Brasil para recuperar o recorde.

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2 Comments

  1. Reinaldo Andrade disse:

    Parabéns!!! Um show! Lindo e emocionante relato de voo.

  2. jose hebert disse:

    Show Guerreiros do ar, pb pelo dia de voo.

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