Travessia Inédita do Vulcão Erta Ale | Karina Oliani

Não é novidade que estou sempre em busca de novos desafios, expedições incríveis e lugares inexplorados. Depois de escalar o Everest pela segunda vez, achei que estava na hora de experimentar algo completamente diferente, algo que sempre me intrigou mas que pouco conhecia: que tal um vulcão?

A ideia já martelava há algum tempo, mas por ser algo tão diferente, deu um trabalho bem maior do que pensava, e a preparação foi bem mais longa. Entre sonhar, imaginar, desenhar, passar pro papel e executar, quase 1 ano se passou. Mas finalmente lá estava eu, após muitas noites sem dormir e horas a fio trabalhando. Chegou finalmente o momento de arrumar a mala e embarcar rumo ao Chifre da África!

 

Karina Oliani Vulcao Erta Ale

Karina durante a Travessia do Erta Ale.

 

Claro que não se tratava de uma expedição turística a um vulcão qualquer. Eu acabara de me propor algo nunca feito antes por nenhum ser humano! Pra mim era algo um tanto quanto lúdico, queria atravessar o maior lago de lava do planeta, queria sentir todo aquele poder e a intensidade da natureza da sua forma mais crua.

Para concretizar meu plano, foi preciso muito planejamento para escolher o melhor local, quais equipamentos seriam necessários, que documentos precisaríamos, mas também um dos pontos essenciais foi a escolha do profissional que faria minha segurança enquanto me pendurava por um fio sobre uma quantidade de lava arrebatadora. Por fim e depois de muitos e-mails, telefonemas e analise do Google Earth, escolhi o Erta Ale, um vulcão na região de Afar na Etiópia, quase fronteira com a Eritréia.

Conhecida como a “região mais inóspita da Terra”, o vulcão encontra-se em permanente atividade e teve sua última grande erupção em 2005, matando muitos animais da região e forçando milhares de pessoas a evacuar. Erupções menores acontecem com frequência e, como não há meios de prever com antecedência, o alerta na região é constante.

 

Karina Oliani vulcão Erta Ale Foto Gabriel Tarso

Karina preparada para a travessia. Foto: Gabriel Tarso

A Viagem

Nossa expedição consistia em uma viagem de 7 dias. Dois apenas para chegar à base do vulcão. Um lugar tão hostil, mas surpreendentemente lindo. Dormíamos ao relento, com milhares de estrelas acima de nós. O Erta Ale é o mais antigo dos 5 lagos de lava existentes no mundo atualmente. Uma paisagem rara que impressiona a qualquer aventureiro que se arriscar nesse território.

Vulcão Erta Ale Etiópia Africa

Vista do grande lago de lava, o vulcão Erta Ale.

Sim, porque o risco não é apenas relacionado ao vulcão, a região abriga outros perigos. Próximo da fronteira entre Etiópia e Eritreia, o Erta Ale é um dos lugares em que há uma disputa local. Essa é uma região histórica de conflitos sangrentos de diferentes tribos africanas.

No aeroporto, já em nossa chegada, fomos revistados e nossos rádios de comunicação de produção todos confiscados. Ao questionar o porquê ele simplesmente nos respondeu que ele decidiu que era ilegal… Uma sorte que nos meus equipamentos de emergência levei meu dispositivo SPOT Gen3, que permaneceu conosco, garantindo nossa comunicação com o mundo. Se não fosse por ele nos dariam por perdidos durante a semana na Etiópia.

Em 2012, cinco turistas foram mortos e dois sequestrados.  A visita ao local exige escolta do exercito, e mesmo assim os riscos são grandes. Infelizmente, após minha volta, recebi a informação que um turista alemão tinha sido morto e seu o guia ferido no mesmo local que eu estivera um dia antes.

A Travessia

No terceiro dia de nossa expedição, caminhamos 4 horas madrugada adentro para realizar o trekking da base do vulcão até a cratera. Camelos carregaram nossos equipamentos de filmagem e suprimentos enquanto subíamos.

Cansados, não imaginávamos a emoção e o vislumbra mento que nos esperava no topo. Já estávamos a 24 horas despertos, mas aquele espetáculo da natureza nos hipnotizou com suas cores e a cena a nossa frente, era provavelmente, a mais forte que vimos em nossas vidas.

Karina Oliani Fotografo Gabriel Tarso Vulcão Erta Ale

Karina Oliani no topo do Erta Ale, na Etiópia. Foto: Gabriel Tarso

Ficamos todos encarando a lava e aquele espetáculo. Estávamos exaustos mas frente a tamanha demonstração de poder e forca da natureza é como se tivéssemos recarregado. Após algumas horas decidimos voltar e organizar nosso acampamento. Quando encostei a cabeça no colchão fino, pensei: acho que certamente estou dormindo em um dos lugares mais mágicos que existe nesse planeta. No dia seguinte, descemos todos a cratera com a mesma intenção: encontrar 2 lugares seguros para a ancoragem, se é que isso era possível… Já que nunca ninguém tinha antes feito.

 

Veja a matéria que o Fantástico fez sobre a travessia!

 

Durante as gravações, o calor era intenso, facilmente alçando os 50ºC.  Mas isso seria apenas um gostinho do que estava por vir. Mesmo com a roupa especial, que mandei fazer sob medida pra mim no Canada, em cima da lava o calor era quase insuportável. Ainda tinha a fumaça tóxica saindo da chamada porta do inferno.

Depois de meses de trabalho e tanto esforço, não bastou atravessar o lago 1 vez. Tive que repetir a dose, mas o equipamento sofria bastante com as temperaturas extremas e os gases.  A corda especial de Kevlar me sustentava enquanto eu me puxava de um ponto a outro com a lava bem abaixo de mim. Será que algum dia vou viver algo mais intenso, mais lindo, mais perigoso do que isso?

A experiência certamente me marcou profundamente e e eu agradeço a Deus pela oportunidade. Depois agradeço a minha família pela paciência e pelo apoio (não deve ser fácil pra eles) e por fim gostaria de agradecer a  quem confia em mim e no meu trabalho e me ajuda a tirar minhas ideias do papel e transformar em projetos fantásticos! Agradeço à SPOT Brasil, mais uma vez ao meu lado, permitindo uma aventura épica como essa ser feita em total segurança!

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1 Comment

  1. Vinícius disse:

    Boa noite! Isso com certeza é inédito e muito legal, mas por favor, isso também é muito curioso: como foi feita a ancoragem de um ponto ao outro?? Isso não sai da minha cabeça.

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