Cicloviagem: O que você sabe e o que acha que sabe?

Escutei muitas pessoas me perguntarem se eu estava preparado para o projeto de aventura que eu rabiscava e me preocupei em não ser arrogante ao ponto de dizer que sim. Se você já sabe tudo que vai passar por ali, então não é uma aventura. A resposta que eu mais dava para as várias perguntas que me faziam – e ainda me fazem- era (é): “não sei”. Assim começou a minha cicloviagem pela América do Sul, com previsão de 30 mil quilômetros em 1 ano.

Assumir que ainda não sabe exatamente como vai reagir o seu organismo a 4.700 metros de altura em uma noite a -15°C foi algo que me deu uma margem de segurança para pensar de forma precavida. Não saber se o corpo vai conseguir pedalar os 100 quilômetros de subida em um dia só, dois ou três, também seria. Até por que a equação se torna um pouco mais complexa do que em uma “simples” ultramaratona: aqui tenho que considerar malas de 40 quilos na bicicleta, tenho que levar toda a minha água, se eu errar a conta carrego muito peso à toa (e isso pode me custar não chegar a tempo no destino que planejei) ou então eu morro de sede e outras variáveis infinitas que rodeiam uma aventura autossuficiente como uma cicloviagem.

A gelada neblina que cerca toda a região

Sobre os meus erros e acertos que cometi nesses 10.000 km em seis meses de Ciclo Sul, acho que o pior erro foi o de ter certeza que eu sabia onde estava o meu limite físico para pedalar o Paso Aguas Negras na Cordilheira dos Andes, e que por isso eu poderia dividir a viagem em dois dias. Na verdade, eu realmente acertei onde estava o meu limite, mas isso me induziu a um erro muito maior.

Este trajeto começa na Argentina e termina no Chile, e eu precisei cruzar a Cordilheira e chegar a 4.700 m de altitude, onde o ar já é muito rarefeito e algumas pessoas tem dificuldade até para dirigir um casso. Eu assumi a falta de experiência com o ar rarefeito, e isso foi o meu foco total para o dia. Mas com tantas pessoas me alertando sobre a altitude e a falta de oxigênio, nenhum dos meus fiscais teve o cuidado de me alertar sobre outro problema que existe em altitude: a temperatura!

No meu plano, passei direto por essa variável, achando que sabia de todo o resto. Pensei em dividir os 180 km em dois dias da seguinte forma: no primeiro dia pedalaria 70 km de pura subida. E no segundo dia, subir os 30 km restantes (os mais difíceis pela falta de oxigênio), e então descer os outros 110 km para chegar até o vilarejo do outro lado da cordilheira.

Breno Bizinoto Cicloviagem Cordilheira dos Andes

A baixa temperatura que pegou Breno de surpresa: -4.3 ºC

E assim aconteceu. Foi logo no primeiro dia que eu quebrei a cara, achando que por estar com boa performance eu poderia subir 70 km sem pensar a quantos metros de altitude eu chegaria nesse momento. Eu subi, e quando pensei que estava em um ponto legal para acampar, ainda com luz do dia para armar a barraca, percebi que meu relógio marcava 0 °C, ainda antes do pôr do sol.

Resumindo a noite do terror: todo o meu equipamento se congelou, porque a madrugada estava a -15 °C. Nessa hora eu vi que a minha barraca era inapropriada para esse tipo de aventura. Eu estava sozinho, com tudo congelando, sem saber se a coisa poderia piorar e eu começar a ter uma hipotermia. Manter o controle emocional foi uma ferramenta importante depois de perceber que eu tinha feito uma bobagem que poderia custar minha cicloviagem inteira. Um pouco resistente, brinquei comigo que eu só iria acionar o S.O.S. do SPOT depois que eu não tivesse mais sensibilidade na ponta dos dedos. Parecia brincadeira, mas era confortante pensar que aquilo poderia ser somente o final do meu projeto, mas que eu seria resgatado antes de morrer congelado.

Breno Bizinoto Blog SPOT Cicloviagem

Quadro da bike congelado na baixa temperatura

Ficar trancado no saco de dormir até as 9 da manhã, com todas as roupas que eu tinha, acordando a cada 20 minutos para enxugar o gelo das paredes da barraca, me garantiram não ter uma hipotermia. Além disso, um cactus que furou o meu colchão de ar me obrigou a passar a noite no chão de pedra, e de certa forma me confortava saber que assim eu não iria dormir de jeito nenhum. Ficar acordado me parecia um instinto de sobrevivência para avaliar a cada minuto se eu ainda sentia a ponta dos pés e se o frio já tinha entrado em um patamar que ameaçava a minha vida ou não.

Por fim o sol nasceu, desmontei todo o equipamento e subi na bicicleta ainda com pedaços de gelo. Deixei pra tomar café da manhã no caminho, quando eu acreditasse que estava de volta na estrada. Não morrer congelado foi o objetivo daquela noite, e eu tinha acabado de sair vitorioso. Parece um bom momento para refletir, enquanto se pedala em um dos lugares mais bonitos do mundo, não parece? Assim, reciclei as minhas definições de sabedoria e conhecimento para me preparar para a próxima cicloviagem.

Breno Bizinoto Cicloviagem Cordilheira dos Andes

Depois do perrengue superado e da lição aprendida, a aventura continua!

Assumir que não sabe é a ferramenta para se abrir a saber. Garantir que conhece e está pronto para tudo é a porta para o despreparo. E você, como se prepara para a sua aventura?

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3 Comments

  1. Neriberto disse:

    Excelente relato, Breno.

  2. Heleno Junior disse:

    Grande Breno
    Sei bem o que diz pois fiz essa viagem em 1998. Saindo de Goiânia-Goiás, passei pelo Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai antes de voltar à minha cidade de origem. Pedalei 12.000 km em seis meses levando 80 kg de equipamentos (incluindo a bike). Não fui tão alto como você pois cruzei a cordilheira por Uspallata. Cheguei a 3.400 metros de altitude, onde peguei -25°C. Entendi bem seu sofrimento.
    Continue firme nessa cicloviagem. Foi a coisa mais fantástica que ocorreu na minha vida.
    Grande abraço e boa pedalada.

  3. Nessas viagens nem tudo sai como o planejado. Aprendemos muito quando passamos por situações desconfortáveis, ainda mais em lugares remotos. Parabéns pelo relato!

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