“Quem somos nós?” por Israel Coifman

Em outubro do ano passado eu estava no Equador, cruzando mais uma vez a Cordilheira dos Andes com a minha bicicleta. A subida – como se pode imaginar – não estava fácil. Outra vez eu saía do nível do mar para ultrapassar mais de 4000 m de altitude. A meta era chegar no lado leste das montanhas e continuar minha rota rumo ao norte do continente. Quase no cume, entre Pallatanga e Colta, havia uma forte neblina com temperatura bem baixa e à frente um posto de gasolina. O nome El Tablón me marcou pois era o único estabelecimento comercial e sinal de civilização por ali.

Havia uns 4 ou 5 frentistas, rapazes de até 20 anos e um senhor, o gerente. Me rodearam. Eles curiosos com a minha presença enquanto eu escaneava a área para ver se eu poderia pernoitar por lá. Não precisou de muito para autorizarem a minha estada. Armei a barraca ao lado de um motor desligado, embaixo de uma telha para me proteger do vento forte e da chuva que estava para começar.

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Cozinhei com todos à minha volta. Eles estupefatos com a minha panela retrátil de silicone que preparava uma comida cheirosa sobre um minúsculo fogareiro. Servi um pouco para todos experimentarem. Era a primeira vez que eles comiam algumas das especiarias que carrego na bicicleta. Depois me serviram chocolate quente e alguma guloseima de sobremesa. Mostrei meus equipamentos e falamos sobre os nossos países. Dei alguns modestos conselhos sobre estudar, trabalhar e viajar. Eles me deram calor humano num lugar tão frio. Foi uma noite feliz, agradável. Amanheci, um deles ainda estava lá de plantão. Dividimos o café e segui meu rumo.

Pedalei até a Colômbia. Depois voltei para o Equador. Peguei um avião até Israel e então, inesperadamente, outro para o Brasil. Entrei dentro de um carro para repetir praticamente todo itinerário pedalado. E 2017 inteiro foi espremido dentro da última semana de abril de 2018. Quase oito mil quilômetros em sete dias. Viajando de bicicleta eu via e era visto de forma bem distinta. Bem humana, sem atalhos. Dentro de um carro de duzentos mil reais houve um abismo muito maior que qualquer cifra, muito além do clichê pedal versus motor. Uma mesma pessoa que te vê com um olhar em uma situação, não te reconhece na outra. E vice e versa.

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Eis que o improvável aconteceu. Uma baita ironia do destino me botou outra vez naquela estrada equatoriana em que eu duramente subi a 5km/h. Desta vez dentro de um Volvo e, ganhando dinheiro para viajar, parei no El Tablón – aquele mesmo posto de gasolina onde passei a noite com amigos emprestados da estrada. O Cacá estava dirigindo, o Caio no banco da frente e eu atrás vendo um filme passar na minha cabeça. Um dos rapazes com quem compartilhei aquela noite agradável dando risadas e conversando, abriu a tampa do combustível e começou a encher o tanque. Eu desci e olhei para ele. Ele me olhou e desviou o olhar. Era outro olhar. Éramos outras pessoas. Ele não me reconheceu e eu não consegui falar que eu era eu: aquele cicloviajante cheio de histórias que chegou numa tarde qualquer para dormir ali. Tive vergonha ou medo de não ser reconhecido. Ou ter que explicar que aquele não era eu. Que eu mesmo era o da bicicleta e ali, naquela versão, eu estava apenas disfarçado de quem eu não sou mais.

Que confusão! Achei melhor não falar nada porque eu não sabia o que falar. Depois me arrependi. Tampouco havia tempo para conversas. Estávamos atrasados em uma viagem de 30h sem dormir. Ele fez seu trabalho. Mais um carro saiu de lá abastecido. Pessoas que não fazem parte de seu universo – e vice-versa – partiram para “nunca mais voltar”.

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É difícil assimilar o que está acontecendo. Não sei se começo por dentro ou por fora. Peguei um caminho sem volta, até porque não tenho para onde voltar. E mesmo se tivesse, já seria tarde demais. Às vezes sinto falta da ignorância de outras épocas… De culpar a falta de tempo, o excesso de compromissos ou até mesmo o conforto de ter um lar para me distrair. As vezes dá saudades (mas passa) de estar embriagado com os meus problemas, necessidades, contas, dilemas…só para eu não ver o que tem lá fora e me entreter bastante com o que não importa, para evitar também o que há aqui dentro.

Sou um privilegiado por ter no rosto as marcas de sol, da estrada. Rugas de uma vida bem vivida, cheia de oportunidades e bons amigos. Sinais do tempo, olheiras por dormir pouco porque tem um novo e grande dia para viver amanhã. Uma nova aventura a começar. Marcas de uma vida feliz que me surpreende cada vez mais. Ultimamente tenho absorvido muito mais do que posso digerir. Não consigo organizar tantos pensamentos. E é difícil conviver com tantas oportunidades e tanto aprendizado e ver um outro lado tão desfavorecido.

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Colhemos o que plantamos, sabemos. Atraímos as coisas. Faz sentido né? Talvez para a maioria de nós. Mas fora desta bolha que vivemos e nos relacionamos, há uma outra maioria (bem maior), que faz o que tem que ser feito, mas não vê resultado. Para eles esse papinho de sabedoria espiritual zen e de #gratidão não existe. As invisíveis fronteiras delimitam muito mais que territórios. Elas determinam até onde você pode ou não ir, quem você é e possivelmente vai ser. Afortunados somos nós que temos e tivemos acesso. Que comemos quantas refeições desejarmos, que podemos viajar, experimentar, se dar o luxo de errar… recomeçar.

O rapaz do posto deixou os estudos para trabalhar dobrado enchendo os tanques de gasolina para viver em um povoado inóspito e talvez nunca ir a Quito conhecer a capital de seu país. Eu, que passei ali de bicicleta, descasquei verduras com as mãos congelando de frio, estou agora escrevendo num quarto confortável de hotel em Nova Iorque após também ter ganhado dinheiro com o meu trabalho. Tenho um vôo mais tarde para Israel, para seguir viajando de bicicleta. O rapaz vai subir o morro para sua casa e voltar mais tarde para o posto.

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Sem culpas, sigo com uma angústia que sei que vai me acompanhar para sempre. Porque aprendo mais das pessoas do que eu ensino e dou menos pro mundo do que ele me dá. Porque randomicamente eu fui favorecido ao nascer e a maioria lá fora não. Como tudo na vida, viajar também tem dois lados. Bônus maravilhosos mas ônus que doem na alma. E tudo segue sendo uma questão de perspectiva. Até o sofrimento.

Ah! Apenas uma rápida atualizada. Estou viajando em bicicleta desde dezembro de 2016. Pedalei mais de dez mil quilômetros na América do Sul e fui até Cartagena, na Colômbia. Por coisas do coração, voltei ao Equador. E a viagem estava prestes a começar, agora a dois. Eu e Sofia pegamos um vôo em Quito e fomos até Israel, no Oriente Médio, nos planejando a começar a pedalar pelo norte da África. Surpreendentemente fui convidado a integrar a tripulação do #XC40OnTheRoad, um projeto da Volvo que foi de carro de Itajaí (SC) até Newport, em Rhode Island, nos EUA. Que loucura! Repetir os 10 mil km que fiz de bike, agora dentro de um carro!

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Voltei ao Brasil depois de quase um ano e meio, dei um beijo na família e embarquei nesta aventura. Agora de volta a Israel, as bicicletas já estão prontas para um novo desafio.

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1 Comment

  1. Clayton disse:

    Meu pensamento é de alegria lendo este post…pois em min também se acende uma fagulha para viver sem fronteiras…
    Meus parabéns… Boa sorte e todo conhecimento do mundo a ti, Israel.

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