Operação Acolhida | Karina Oliani em Missão Humanitária em Roraima

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Se você tem TV a cabo, deve ter se deparado com algum documentário sobre crise de refugiados na Europa e em outros cantos do mundo. Pois saiba que aqui no norte do nosso país sofremos algo parecido com cenários igualmente preocupantes. São os refugiados principalmente venezuelanos. A cada dia calcula-se que cerca de 500 cidadãos do país vizinho chegam no estado de Roraima apenas com a roupa do corpo. O que podemos fazer para ajudar?

Em primeiro lugar, cada pessoa tem que perguntar para si mesma qual é a sua parte que é possível se ser feita para prestar um auxílio. Fazer uma limpa nos guarda-roupas para encaminhar para doação aquelas peças que não usa mais é um caminho. Verificar na “mini-farmácia” que todos temos em nossas gavetas para ver que medicamentos temos que ainda não venceram, arrecadar alimentos em família ou na vizinhança e encaminhar para entidades e organizações de credibilidade que darão um destino certo para os mantimentos…

Qualquer forma acima que for realizada ajuda e muito em casos de calamidade humanitária como a que testemunhei entre os dias 2 e 7 de julho nas cidades de Boa Vista – capital de Roraima – e Paracaíma, na fronteira do estado com a Venezuela. Além de ter mobilizado tudo o que descrevi no parágrafo anterior, eu também fiz uma doação que eu considero preciosa: meu tempo e conhecimentos como médica. Enquanto eu tiver saúde física e mental, é sagrado em todos os anos doar pelo menos trinta dias para realizar atendimento de saúde em alguma região remota do mundo para prestar assistência para pessoas que estejam necessitadas e sem acesso fácil a um profissional de saúde.

Felizmente não sou a única que pensa assim. Por meio do Instituto Dharma, com apoio das Forças Armadas do Brasil (Exército, Marinha e Aeronáutica), uma equipe de 21 profissionais, médicos, fisioterapeutas, dentistas e outros ficaram dias nas duas cidades sob o comando do Coronel Kanaan e, dessa forma, conseguimos cuidar do estado de saúde de diversas pessoas que, infelizmente, hoje atendem sob a alcunha de refugiados.

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Equipe da Operação Acolhida

Cabe registrar aqui um elogio e minha admiração aos militares que organizam da melhor forma essa recepção aos nossos vizinhos no que batizaram com o sugestivo nome de “Operação Acolhida”, que não estão fazendo julgamentos sobre a situação, mas sim fazendo algo que dá um orgulho danado de ser brasileiro: partindo pra ação.

A cada atendimento odontológico ou com ginecologista, cirurgião, clínico geral, infectologista, pediatra e outras especialidades que conseguimos levar para lá, era possível ver o sofrimento e a dor de diversas famílias e pessoas que muitas vezes tinham uma vida parecida com a de muitos brasileiros: tinham casa, comida, trabalho, amigos, família… e de repente todo um sistema entra em colapso e são obrigadas a abandonar não apenas isso que foi enumerado. Uma coisa é ser imigrante em um país de cultura e língua diferente como o Brasil por livre e espontânea vontade. Outra é correr para cá escapando de fome, violência e medo.

Em Boa Vista a gente fez uma divisão nos nove abrigos existentes para os venezuelanos para que nenhum ficasse sem atendimento. Cada unidade tinha a sua peculiaridade. Havia abrigos apenas para refugiados indígenas, outro apenas para mães solteiras com filhos, outros masculinos, um só para famílias completas que tiveram a sorte de não ficarem desintegradas no caos que a Venezuela se encontra, enfim. Levamos mais de uma tonelada de mantimentos transportados de avião pela Aeronáutica, mas o que mais teve um peso maior foi uma lição que eu já sei mas que foi confirmada nesses dias de trabalho insano.

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Eu não posso falar em nome dos meus colegas de profissão que se integraram na Operação Acolhida doando também seus tempos e conhecimentos de forma voluntária. Pensem junto comigo: eles bem que poderiam ter ficado nos seus lares e ganhando dinheiro em seus consultórios em diversas cidades do Brasil. Consulta médica é cara! Ao invés de monetizarem, preferiram deixar falar mais alto a generosidade. Só em escrever isso meu coracao enche de esperanca. É a prova de que ainda existe gente se importa com outras pessoas pelo mundo contaminado de problemas graves.

Como médica, as pessoas sempre esperam de mim que eu vá levar a cura para muitas doenças. Na realidade, sou daquele tipo de profissional que toca no paciente, conversa e – principalmente – olha no fundo dos olhos e procuro sentir e perceber algum sintoma que muitas vezes o doente não consegue expressar. É dessa forma que eu consigo ver que o trabalho de curar pessoas é também um pouco de curar a mim mesma. Me curar de medos, certezas absolutas que se mostram de pouca sustentação, preconceitos e pequenos egoísmos. Afinal, somos seres imperfeitos e também temos os nossos defeitos.

Algo bom da internet é que esse texto ficará para sempre na rede. Não sei se algum refugiado que atendi talvez nesta semana ou daqui alguns anos lerá este texto… Mas se acontecer, saberá que, de alguma forma, não foi apenas os refugiados venezuelanos que eu ajudei a cuidar. Eles, de alguma forma, também cuidaram de mim ao me ajudarem a me tornar uma pessoa melhor.

Ficou com vontade de fazer a sua parte? Procure se informar como na sua cidade, comunidade ou trabalho você pode ajudar a tornar a realidade dessas pessoas um pouco melhor. Se você não conseguir a informação, escreva para o Instituto Dharma clicando aqui para mandar um email que faremos de tudo para auxiliar.

Operações como a Acolhida podem um dia acabar, mas as lições que eles trazem para a gente são para sempre.

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