Novas tecnologias e a popularização do montanhismo

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Serra do Cipó | Foto: Roneijober Andrade

Transcorria 2007, estávamos eu e mais quatro amigos percorrendo a travessia Alto Palácio – Cabeça de Boi, traçado para vertente leste do Parque Nacional da Serra do Cipó, Espinhaço Sul. A cena, um tanto quanto curiosa, se desenhava num vasto campo de altitude. Uma carta topográfica, uma bússola e três jovens, cada um apontando uma direção pra continuidade da pernada. Não havia qualquer consenso, e nós três, com no máximo 10 travessias de experiência cada um já nos julgávamos amplamente aptos pra liderar aquela expedição. Felizmente a maturidade vem, e a soberba vai ficando pra trás… A indecisão acabou por culminar num baita atraso, e terminamos aquele dia de caminhada já perto das 21hs, quando é prudente estar com acampamento montado. Nesta época já haviam aparelhos de GPSs, contudo tais equipamentos não eram lá muito acessíveis. Wikiloc ou aplicativos de geo-referenciamento? Nem pensar…

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Pedra do Baú | Foto: Samuel Oscar

Essa experiência somada a outra de 2005, quando torci o pé no meio de um trekking exploratório de 150 kms, acabou me transformando num sujeito sistemático com aspectos de planejamento e segurança em travessias. Minhas caminhadas passaram a receber uma intensa dedicação analítica: modo Amyr Klink ligado do início ao fim da aventura. Pontos de fuga ou resgate, monitoramento de sinais de celular, alternativas em caso de tromba d’água, hipotermia, tudo entrou na mira e apresentava alternativas. Especialmente durante a criação de novas travessias no Espinhaço, que tem sido meu foco há mais de 10 anos, onde o risco é significativamente maior, tais medidas são sempre adotadas. Quando se está em uma área isolada, com pequena possibilidade de resgate rápido, tudo merece mais cuidado. Aspectos climáticos, frio ou calor, podem, por exemplo, colocar a vida de uma pessoa em risco. O mesmo vale pra acidentes com animais peçonhentos, em especial com abelhas e marimbondos (que matam muito mais que cobras, aranhas ou escorpiões), ou uma simples torção de pé pode representar um grande problema dependendo do local onde acontece.

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Serra da Moeda | Foto: Robson de Oliveira

Contudo, com o passar do tempo, parte das preocupações foram perdendo tal importância. Isso se deu devido ao avanço das tecnologias que tem mudado o fator de risco, o que é muito bom para o montanhismo de uma maneira geral. A começar pelo Spot Gen 3, que me fez reconsiderar uma medida antes inquestionável: jamais fazer travessias sozinho. Hoje, com a utilização do aparelho de comunicação para resgate, expedições solitárias voltaram a ser parte do meu cotidiano nas montanhas. Todo mês faço ao menos uma travessia/caminhada solo no Espinhaço, e mais recentemente passei a praticar atividades assim também na Mantiqueira e outros sítios. Em agosto último por exemplo, fiquei 6 dias no Itatiaia escalando alguns dos cumes mais altos do Brasil, totalmente isolado, vivenciando uma sensação indescritível de liberdade. Mas não só, a redução significativa de peso dos equipamentos somada a melhora de desempenho técnico tem contribuído para conquista de espaços antes mais restritos. Encarar travessias no inverno da Mantiqueira, no Pico da Bandeira ou nos cânions do Sul com leves e poderosos sacos de dormir, isolantes térmicos infláveis, aquecedores instantâneos e roupas apropriadas é uma realidade acessível para grande parte das pessoas. Sem esses equipamentos tais experiências poderiam ser pouco prazerosas, alem de eventualmente arriscadas.

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“Terra dos Passarinhos”, nome lúdico de um lugar real na Nova Zelandia | Foto: Renata Rocha

A ideia do heroísmo é bonita, mas eu particularmente fico bem mais feliz que a montanha seja de fato para todos (aproveitando a deixa pra citar os nossos ídolos do projeto Montanha para Todos 😀 esses sim verdadeiros heróis), por isso, toda e qualquer oportunidade de atrair mais gente para essas atividades me parece positiva. Evidentemente que esse aumento de fluxo tem também seus poréns: impactos maiores, muitas vezes motivados pela falta de conhecimento dos praticantes ou da própria gestão pública. A citar, por exemplo, quão inadmissível é que duas das mais clássicas travessias brasileiras, Serra Fina e Marins-Itaguaré, não estejam sequer inseridas dentro de áreas totalmente protegidas com planos de manejo bem delimitados. O mesmo acontece com o ponto culminante do norte de Minas Gerais, o Pico do Formosa, entre Mato Verde e Monte Azul, onde não há sequer uma APA que o contemple.

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Pedra do Baú | Foto: Samuel Oscar

Mas voltando, superados esses problemas do fluxo, a popularização do montanhismo tende a ser benéfica em âmbito geral. Primeiro para os próprios praticantes que descobrem um entretenimento saudável e único, depois para fortalecer as lutas por preservação e sustentabilidade e, por fim, para incentivar o crescimento econômico da cadeia do turismo. Segmento que envolve 52 atividades comerciais: de guias, agências, hotéis, restaurantes, industria de equipamentos até postos de gasolina e farmácias, só pra citar alguns dos beneficiados. Cabe a nós todos, apaixonados pela montanha, entender o espaço positivo das novas tecnologias e empreender um esforço conjunto para que esse crescimento da atividade flua de maneira saudável e responsável.


Esse texto foi enviado pelo parceiro Bernardo do Espinhaço. Montanhista, músico e mineiro. Veja outros posts do montanhista em nosso blog clicando aqui. Conheça as redes sociais do Bernardo clicando aqui: Facebook | Instagram.

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