Resgate na Laguna de Los Tres, El Chaltén

Existe uma linha tênue entre o que você irá contar com graça e o que se tornará dor e arrependimento.

montanha rio gelo el chaltén

Quando você viaja o suficiente, entende que más notícias chegam sem fazer qualquer distinção geográfica, étnica ou ideológica. Coisas ruins acontecem com pessoas boas e, se existe uma regra aprendida na estrada é: tudo está bem até que não esteja.

Há alguns meses, um triste episódio nessa montanha me fez questionar algumas de minhas ações e as situações em que me coloco. Nos últimos anos eu tenho dado a cara ao tapa, hasteando a bandeira do perrengue e mostrado que dramas físicos e emocionais são sempre superáveis.

Mas esse foi um ponto de inflexão. Um respiro carregado de autocrítica, onde uma situação simples ganha um enorme significado. Todos, por mais aventureiros que se apresentem, querem sempre voltar pra casa a salvo.

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Cravada aos pés da Cordilheira dos Andes, no sul da Argentina, décadas atrás a pequena e caótica vila de El Chaltén era apenas um território de fazendeiros ermitões com caras fechadas, olhares desconfiados e alguns montanhistas durões. Hoje, com o título de Capital Nacional do Trekking do país hermano, a região tem suas portas escancaradas para o turismo e atividades outdoor. Ali, entre lagunas de águas leitosas, geleiras e alguns dos picos mais inacessíveis e isolados do planeta, esse lugar extremamente rudimentar é a situação perfeita desejada por muitos quando falamos em explorar a Patagônia.

Fundada em 1985 para pôr fim à disputa fronteiriça com o Chile na região do Lago del Desierto e reafirmar a soberania da Argentina, hoje El Chaltén é a cidade mais jovem do país. Um pequeno povoado, localizado dentro do Parque Nacional de los Glaciares, que durante o inverno rigoroso se mantém com menos de mil moradores. Como de praxe na Patagônia, a vida e o combustível para o lugar serão dados com a chegada do verão, onde a população sazonal dará um salto enorme visto a chegadas de fanáticos por trekkings, alpinistas, mochileiros e pessoas atrás de algum trabalho durante a temporada.

Desde a primeira vez em que estive nessa região, ao ver a silhueta denteada dos Andes gradativamente ganhando corpo durante a chegada, erguendo montanhas antes apenas imaginadas por narrativas como o Cerro Torre e o Fitz Roy, eu me rendi à sua beleza. Isso foi há algum tempo, e mesmo hoje continua sendo um dos lugares mais cativantes pelos quais eu pude transitar.

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Mas existe um local especial. Um trilha, uma verdadeira artéria da Patagônia, que percorre dez quilômetros bosque adentro e culmina, depois de uma subida a quase 90º de inclinação, em uma das mais espetaculares vistas de minha vida.

Eu já estive nesse lugar em diferentes épocas. Com mais ou menos neve, gelo na trilha, céu nublado ou aberto. Sempre foi um esforço gigantesco para conseguir chegar, visto que estou mais do lado de viajante entusiasta do que para montanhista propriamente dito.  Tombos, deslizes, pedras soltas, momentos “escalaminhando” e por aí vai. Um lugar de beleza imensa, mas por puro capricho da mãe natureza, bastante inacessível. E talvez, justamente por isso, seja tão gratificante chegar. A paisagem acompanha o esforço e entrega uma medalha imaginária a quem completa a missão. Um pequeno preço a se pagar por deixar o coração ser invadido pela Patagônia.

É ali, nos pés do Cerro Fitz Roy, que está a Laguna de Los Tres.

montanha neve el chaltén

Depois de horas de caminhada, a Laguna de Los Tres nos surpreende congelada. Já estávamos em novembro e ninguém esperava que a essa altura do ano, tudo estivesse branco. De toda forma, a vista continua espetacular e a poucos metros de distância, outra laguna nos espera. Fazendo jus aos nossos insistentes relatos de beleza tentando incentivar nosso grupo, encontramos a Laguna Sucia, um poço de um azul vibrante, resultado do derretimento da neve e dos glaciares.

montanha neve

Nesse momento, sem sequer poder imaginar, éramos o rebanho seguindo para o abatedouro.

Como muitas coisas na vida, não adianta enfeitar a realidade só porque o tempo passou. Foi péssimo. Continua sendo. Com o andar em câmera lenta que costuma preceder desastres e o silêncio abafando os ânimos, o imprevisto nos nocauteou sem piedade.

Um passo em falso para trás e na sequência uma das meninas está no chão, com a cabeça no nível mais baixo da fenda e os pés inclinados para cima. O joelho tem uma forma indescritível, daquelas que causam repulsa e dor só de olhar. Numa fração de segundo, o caos está instalado. Gio – meu companheiro de viagem – tenta acudir e minhas esperanças de ser um pequeno acidente desabam na sentença: “luxou o joelho”.

montanha acidente

São cinco horas da tarde e não existe a menor chance de sair caminhando dali. Em poucas horas o sol vai baixar e nos meteremos em uma encruzilhada. Durante o dia o sol mantém a temperatura, mas ao cair da noite o campo de gelo atrás da cordilheira se faz presente e o frio é rigoroso. Com um grupo para levar de volta ao povoado e um caso sério de acidente para solucionar, a opção é confiar que o restante do grupo saiba como voltar sozinho.

À luz do que acabava de acontecer, dali pra frente, em minha memória, muitas perguntas, respostas e acontecimentos se misturam. Ninguém estava preparado para uma situação tal como aquela. Estava acima do que poderíamos cogitar e manter como cuidado. Poderia ter acontecido no povoado, em El Calafate ou levantando do sofá dentro de casa, mas ocorreu justo ali, no mirante da Laguna Sucia. E a julgar pela enorme descida que tínhamos pela frente, esse era, provavelmente, o ponto de mais difícil acesso no qual nos meteríamos durante essa viagem pela Patagônia.

Em meio à pane geral instalada, a notícia se espalha pelo local e um médico francês – de férias na região – e uma das nossas colegas de viagem – também médica -, aparecem para acudir e tentam buscar uma solução. Aparentemente sem sucesso e com o dia dando seus últimos raios de luz, nossas esperanças de sair dali passam somente pelo resgate dos guarda-parques. Naquele momento, já considerávamos a hipótese de passar a noite mais fria de nossas vidas montanha acima.

Às 23h, seis horas após a luxação, as primeiras lanternas começam a se destacar em meio à escuridão. Estamos na companhia de um guia local, que soube da ocorrência a 2 quilômetros de distância, largou seu turno e se prontificou a ajudar. Foi por intermédio dele e do seu rádio que os guarda- parques foram avisados e puderam convocar a equipe de resgate no povoado.

Ao todo são doze voluntários visivelmente preparados para situações extremas e que tratam com uma absurda tranquilidade o caso. Em poucos minutos, nossa amiga está totalmente amparada pela equipe, com a perna imobilizada sobre uma maca rígida. Não existe helicóptero para fins de resgate na região e carregá-la durante oito quilômetros morro abaixo é nossa única alternativa rumo a primeira via de acesso, onde estará uma ambulância.

montanha noite

Do epicentro do sufoco a uma descida carregada de autocrítica, em um esforço comunitário do qual nunca havíamos participado, a sensação de alívio ao ver uma situação crítica ter um desfecho favorável ganha mais um conforto emocional ao ver a silhueta do Cerro Fitz Roy emoldurada por milhares de estrelas em nosso “até logo” à montanha.  Um alento acima das preocupações e do estresse inerente, nos deixando uma mensagem positiva de que “tudo ficará bem”, mesmo enfrentando um dos maiores traumas de todas as minhas viagens. Um alerta para futuros cuidados e a introdução de um grau ainda maior de ceticismo saudável em relação à montanha.

Mortos de cansaço, quase desfalecidos pelo esforço e a sensação de alívio, soubemos pela médica plantonista no posto de saúde de El Chaltén que o grupo de resgate já havia colocado o joelho de nossa amiga no lugar, e que, acredite se quiser, com certa ajuda, ela poderia sair caminhando dali sem maiores problemas. Uma surpresa e um afago, tal qual o céu estrelado mais bonito de nossas vidas, que nos faz refletir sobre a totalidade da situação e relativizar o que aprendemos em meio ao caos.

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Seis meses depois, estamos de volta a El Chaltén. Dessa vez, com a permissão dos guarda-parques, vamos direto a Laguna Sucia. Nossa missão ali passa apenas por uma situação: agradecer, do nosso jeito, por tudo que essa região nos tem ensinado.

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Hoje, mais que inspirar ou amedrontar, minha intenção é causar uma reação. É tentar explicar que nem sempre todas as trilhas serão floridas, ao passo que continuo – e sempre vou continuar – incentivando todos a esquecer o Netflix, abraçar a mochila e pular para fora de casa.

Por motivos raramente justificáveis, nos colocamos à mercê de situações onde as probabilidades de perrengue e sufoco são grandes. Encruzilhadas, onde, em alguns momentos, o preço a pagar pode ser alto demais se não estivermos armados até os dentes de coragem e resguardados por algo ou alguém que salve nossa pele.

Essa instabilidade acompanha, abençoa e amaldiçoa quem opta por encher a mochila e zarpar. Ela atrai, compõe e determina um rumo, para o bem e para o mal. No final, ninguém sabe onde é o fim da linha e só cabe a nós torcermos, estarmos atentos e precavidos para diminuir os acontecimentos que acabam com indagações se resumindo em um desolado “por quê?”.

Por outro lado, trata-se também de não somente chegar são e salvo ao túmulo, mas de agarrar o tempo que ainda está em jogo e gastá-lo da melhor forma possível. A vida está da janela pra fora e somente um covarde se esconde para sempre no seu bunker.

Se em algum momento vamos acabar nos ferrando de uma forma ou outra, que seja pecando pelo excesso. E claro, dando o máximo de trabalho ao acaso.

montanha spot

À toda a equipe do Parque Nacional de los Glaciares e ao guia Paulo, o meu apreço e agradecimento eterno. Todo o desfecho positivo dessa situação é graças a vocês.

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1 Comment

  1. Emmanuel Almeida disse:

    Toda vida dedicamos à beleza da terra e do universo, é a resposta a tudo.

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